sábado, 2 de novembro de 2013

FINADOS

     In illo tempore, quer dizer, nos tempos de D. João Charuto (*) ou melhor: na minha infância, dia 2 de novembro ou "Finados", era um dia em que a religião esmerava-se em pompas e cerimônias fúnebres. Mostrava com isso suas origens. Sempre tive para mim que as religiões originaram-se no espanto, sofrimento, e no caráter indecifrável da morte. Daí o consolo de, sem exceção, todas falarem nas recompensas e na felicidade que advirão ao ser humano depois dessa "passagem" efêmera e de certa forma uma espécie de vestibular para a bem-aventurança eterna da "verdadeira vida".
     A vida moderna mudou bastante esses costumes. Naquela época remota, até as rádios (sim! nem TV existia!) tinham parte importante no "clima geral", uma vez que só podiam tocar músicas clássicas, que em nossa ignorância pueril chamávamos de "música fúnebre". Multidões iam aos cemitérios, o comércio de flores e velas era inflacionadíssimo e nem por isso deixavam de vender todo o estoque. Nas ruas raros transeuntes, silenciosamente iam aos poucos desaparecendo nas esquinas. 
     Os céus, parte importante dos cenários religiosos, colaboravam com uma chuva fininha e perene, um friozinho que não dava para espantar, mas levava a todos a uma dimensão meditativa e introvertida, só interrompida pelos sons de orações e hinos cantados em diversos idiomas.
     Entrava-se pela noite com esses sentimentos a envolverem o mundo. Talvez alguns jejuassem, não sei. Só me ocorre que nós, as crianças,  íamos dormir algo pensativos, perguntando-nos o que seria da nossa vida e da  própria sobrevivência de cada um, no intolerável sentimento de perda e abandono que sentiríamos no caso de a morte dos pais. Pais jamais deviam morrer! Mas sabíamos, no fundo de cada um, que isso era inevitável. 
     O sofrimento antecipado por essa futura tragédia  era tão insuportável, que ficávamos exaustos. Logo o sono vinha e um radioso 3 de novembro aparecia no horizonte. E tudo aquilo era imediatamente substituído pela avassaladora fome de viver que cada criança possui. Essa, sim, a fé primordial.  
    
(*)   graças à internet fiquei agora sabendo que a expressão "nos tempos de D. João charuto" refere-se à antiga época de D. João VI, quando começou a se fabricar charutos no Brasil, certamente com autorização da "régia autoridade"