domingo, 12 de junho de 2016

D I A D O S N A M O R A D O S

      Santo Antônio: amanhã será seu dia. Em Brasília todos vamos ao local onde fica sua igreja, apanhar o pãozinho bento. Tradição que veio junto com os portugueses há muitos séculos, trazida de uma história na qual o jovem franciscano Antonio, comovido com a pobreza faminta dos homens, deu-lhes a comer os pães que havia no convento. Mais tarde, a aflição do encarregado de servir a refeição dos frades foi enorme, ao notar que nem um só pão havia, na cesta antes abarrotada. Correu então a contar o terrível fenômeno a Antonio, tido já por seus irmãos como santo. Este respondeu-lhe que voltasse e olhasse melhor. O frade padeiro assim o fez e estupefato, deparou-se com cestos e mais cestos abarrotados! Tantos eram os pães que todos ali puderam fartar-se e com a sobra, alimentarem homens e animais das vizinhanças. 

      Hoje, véspera de Santo Antonio, é consagrado na tradição popular católica como "Dia dos Namorados" Acho que foi nesse espírito que, motivado por uma curiosíssima nota publicada em um jornal do DF, que há muitos anos escrevi a crônica abaixo, ora dedicada a todos nós, eternos enamorados e a nossas eternas e queridas musas.

"FAIXA PARA ATRAIR UM NAMORADO SÉRIO
      um dia, ela contou para duas amigas que queria conhecer um 'homem sérios, especial, estabilizado profissional e financeiramente' . Haqvia se cansado de homens vazios, sem inteligência e cultura. As duas amigas levaram o pedido ao pé da letra. Literalmente. Ontem, dia do aniversário de 27 anos, a psicopedagoga Tatiana (sobrenome não revelado), moradora da Asa Norte, estatura mediana, loira, olhos castanhos, recém-separada, um filho de oito meses, foi presenteada pelas amigas com uma faixa inusitada, colocada entre o Tribunal de Justiça e o Ministério Publico. Na faixa, com o número do celular dela, o pedido: 'Procura-se um namorado que trabalhe no TJ ou MPDFT. Sou batalhadora, romântica e bonita."   (in "Correio Braziliense" de Quarta-feira, 21 de julho de 2004 - pág. 26)


      Acordou mais cedo que o costume. Ouvira o bebê chorar? Apurou o ouvido na direção do berço ao lado da sua cama; só distinguiu o ressonar baixo de quem dormia tranquilo e satisfeito. O que havia sido então?
      Fez funcionar a cafeteira elétrica, pegou a xícara que sempre usou, branca e não decorada, a não ser um pequeno "HB" de "happy birthday" gravado em preto fosco na lateral. Aí lembrou-se da data: seu aniversário de 27 anos. 
      Pensativa dirigiu-se ao banheiro. Pegou a escova e ao pentear-se, dois ou três fios mais claros que os habituais castanho-escuros destacaram-se logo: "belo presente!" pensou. "Descobrir cabelos brancos logo hoje!
      Olhou de novo o berço, onde Tiago continuava seu sono, indiferente ao mundo e seus percalços. Queria descer até a portaria do bloco para pegar o jornal, mas ficou com medo de o telefone soar justamente na sua ausência e assustá-lo. Se tirasse o som da campainha iria assustar era quem quer que ligasse e não fosse atendido, pensou. Em seguida se acusou de sempre colocar dilemas para si própria, mesmo em coisas as mais triviais. Seu ex-marido sempre lhe dissera isso, no meio de outras acusações ainda piores. Dava uma discussão sem fim, mas reconhecia, no íntimo, que nesse ponto ele tinha razão. Eduardo, as constantes crises que pareciam infindáveis... mas o fim quase total e imediato delas, quando finalmente concordaram que não dava mais para a vida em comum. Quase voltaram a namorar, ele tão atencioso... ela tão cuidadosa... Mas havia acabado e pronto. Era isso. Tocar para frente.
      Lembrou-se que o aparelho era desses sem fio, modelo que, segundo a propaganda do vendedor da "Feira do Paraguai" tinha um alcance de duzentos metros: 900 e não sei o quê de potência. Vestiu uma calça comprida, colocou um blusão por cima do paletó do pijama e o telefone no bolso.
      Estava dentro do elevador, já de volta para o 4º andar, quando o aparelho soou baixinho, dentro do bolso da calça. "Alô! Quem?" Não conseguira ouvir direito. Voz parecida com a do Álvaro, seu irmão. Deve ter querido dar-lhe os parabéns, o telefone instável logo interrompeu a ligação. Os tais... megahertz, lembrou-se subitamente do nome que o vendedor dissera: conversa fiada.
      De volta ao apartamento, ficou esperando nova chamada. Ou que Tiago acordasse para que pudesse sair com ele. Nesses primeiros dias de retorno ao trabalho, todos eram muito pacientes com os seus constantes atrasos, que entretanto a aborreciam. De qualquer maneira, gostava de sair cedo com o filho, na direção da creche. Ficava na Quadra 608 da L2 Norte, e justificava a fama de ser a melhor de Brasília. Foi uma revelação perceber que podia contar com um local tão bem estruturado e administrado, onde seu filho ficava tanto tempo e onde cuidavam dele tão bem. Não era muito perto do trabalho, mas seu pai, crítico do difícil percurso Leste-Oeste no trânsito da cidade, sempre descobria atalhos que ajudavam-no a conduzi-la e ao irmão para o colégio. E agora ela agradecia mentalmente a ele, que um dia lhe mostrara como ir daquele lugar, junto do Campus da UNB, até o Eixo Monumental, onde ficavam o conjunto dos prédios da administração do Distrito Federal.
      Quando o telefone tocou novamente, ficou surpresa ao escutar a voz de Marisa, e não a do irmão. Ao mesmo tempo. alegrou-se com as brincadeiras da amiga predileta. Mas não entendeu o que ela dizia: faixa? Que faixa? Ah, era uma surpresa dela e de Lúcia, outra grande amiga que viajara naqueles dias. Então, quando fosse para a Procuradoria do DF, desse uma volta na Praça do Buriti no lugar de entrar à direita e seguir para o trabalho. À esquerda no Memorial JK, à esquerda novamente no Eixão e olhasse para o estacionamento do Tribunal de Justiça do DF e Territórios. Combinado! Marisa sempre fora uma querida e confiável amiga, desde muito novas.
      Mas seus sentimentos em relação a aquela sofreram brusca alteração quando, seguindo as instruções, deu de cara com a "surpresa": o quê! Colocar uma faixa escandalosa daquelas bem na frente da avenida, entre o Tribunal e o prédio da Promotoria, com seu nº de celular e sua descrição física, oferecendo-se como... sei lá, uma carente idiota e disponível! Sentia-se nua dentro do carro enquanto cumpria o resto do trajeto para o trabalho. Todos os demais motoristas pareciam olhá-la maliciosamente, mal contendo um sorriso debochado nas faces. Dos ônibus a apontavam e riam alto, um completo horror: Marisa me paga!
      Chegou fula da vida na Procuradoria. Só não contava com o bolo "brownie" com a velinha, os colegas cantando à sua volta, o guaraná com gelo (ela adorava guaraná "diet") Marisa percebendo seu amuo mas a distraindo incessantemente com piadas e brincadeiras nas quais logo emendou uma explicação para a festa logo no início do expediente. Havia exposto sua tese ao Dr. Corrêa com tanta habilidade que este concordara: festa à tarde fazia com que quase todos comemorassem rapidamente e aproveitassem para sair mais cedo...
      - Mas a faixa, Marisa! O que vão pensar? Parece coisa de mulher de programa! Só faltou escrever que faço massagem erótica ou algo assim!
      Aos poucos foi finalmente percebendo o humor da amiga e concordando que era até divertido. Podiam contar quantos telefonemas ela receberia, quais os trotes, quais os doentios, quais os verdadeiros... e logo as chamadas vieram, a maioria, a sério para sua surpresa. Davam nome, profissão estado civil, conversavam, jogavam um verde aqui e ali...
      Até que uma voz bem modulada, algo grave, quente, parecendo sincera, logrou atrair sua atenção. Augusto Mário de Azevedo Reis, identificou-se com o nome completo e declarou que era Promotor de Justiça. Envolvente e educado, sabendo manter uma polida distância de quem ainda não conhecia pessoalmente. Uma pequena chama, um prenúncio de algo, quem sabe?  E finalmente, um convite para o fim de semana, um teatro... pediu ao Dr. Augusto Mário que ligasse novamente na sexta-feira à tarde. Quem sabe?
      Ninguém sabe. Essas coisas que acontecem sem que ninguém as perceba direito, simplesmente acontecem: de volta à creche para apanhar Tiago e viu André, pai de Júlia. Sorriram um para o outro enquanto esperavam as crianças, como vai, pois é, seu bebê é lindo, sua filhinha também. No outro dia, quase levou Tiago mesmo dormindo para lá. Não sossegou enquanto não viu Júlia e o pai. Deixaram as crianças, conversaram um pouco, ah, coincidência, vamos para perto um do outro! Pararam no caminho para um café, André contou-lhe da recente e inesperada viuvez, solidarizava-se com a dor do rapaz enquanto o coração acelerava novamente para aquele antigo e gostoso ritmo conhecido. Liga pro meu celular, claro! pegue o meu também, a gente combina alguma coisa, tá certo, ótimo! Daí a oito meses casavam-se. Ah, o Dr. Augusto Mário de Azevedo Reis?  Atualmente faz doutorado em Salamanca, no País Basco.
         


 

sábado, 11 de junho de 2016

PORQUE HOJE É SABADO


      O TÍTULO homenageia a querida e sempre lembrada Cecília Meireles, poeta das maiores. Certa vez ela reuniu em livro algumas deliciosas crônicas e editou sob o nome que usei titulando esta postagem. É edição bem antiga. Quem ficou interessado talvez ache em  sebos.  Vale a pena.
      Aliás o título, para mim, tem outros significados: quando levantei pensava escrever aqui algo sobre a política e os seus agentes. Fui salvo exatamente por que lembrei mais uma vez e disse para mim mesmo: tá louco? Hoje é sábado! Então meu cérebro, sempre prestativo, emendou para mim a data,  com as meninas do quarteto em Cy, mais Vinicius interpretanto o poema deste último.
      Mas então o quê? sobre o quê escrever? Bem, sábado é um dia em que os zoológicos se entopem de crianças e adultos abestalhados, olhando para os bichos - que cometeram o "crime" de serem bichos e por isso foram enjaulados - e ingerindo milhares e milhares de calorias em formato pipoca, refrigerante, cachorro quente, fritas  e uma ou outra guloseima açucarada como determina a tal civilização.
      Mas tirando os maus e costumeiros hábitos e essa história tão triste de zôos e bichos trancafiados, lembrou-me de falar de animais mais sortudos: os que temos em nossas casas, apelidados "de estimação": todo mundo tem. Até o mais pobre, o mendigo, o sem-teto, o bêbado, o equilibrista, o maquinista, o foguista, o ciclista, etc, todo mundo tem um. Além dos que habitam nossos sombrios e desconhecidos desvãos mentais, somos quase sempre adotados por algum ou alguns animal(ais) que desapercebidos no início, transformam-se em parte indissolúvel do nosso cotidiano.
      Nossos inseparáveis amigos podem ser cachorros, gatos, porquinhos da índia, leitões verdadeiros, cobras, lagartos, micos, a lista é infindável. Havia um casal onde a mulher se apaixonou por um boizinho e levou-o para casa. Que era um minúsculo quarto/sala na Prado Junior (no começo de Copacabana, Rio). O marido, boa praça, segurou as pontas enquanto pode, até que um dia não aguentou mais: eu ou ele! Foi visto pela última vez andando sujo, descalço, cabeludo e barbudo perto de um supermercado na Constante Ramos com Barata Ribeiro. Ele e um vira-latas amarrado num barbantinho de nada, amabilíssimo bichinho que abanava o rabo para todo mundo, sem discriminação de gênero, cor, idade, etc. O boi, esse, estava enorme de gordo e rosado, chifres polidos, cascos engraxados, andava com uma coleira onde corações entrelaçados juntavam os nomes de Irene&Caracu.
      Meu espaço chega ao fim e quase deixo de falar dos dois animais que me adotaram, há cinco ou seis anos: Cler e Nanda. Semanas de nascidas,  resgatadas do lixão, ensacadas em um saco plástico bem vedado para asfixiá-las: chegaram com verminoses, diarréia, anêmicas e traumatizadas. Depois de tantos anos, continuam a lição diária de me ensinarem e, pouco a pouco, vou aprendendo. O quê? Amor, ora; amor...

                                                                  foto de 2012

segunda-feira, 6 de junho de 2016

DIÁLOGO DOS APOSENTADOS






     - Vão reformar a Previdência Social, tá sabendo? 
    -  É, ouvi falar.
    -  Ué, que foi isso no dente da frente?
    -  Acabou caindo, sabe? tô esperando receber a aposentadoria para ir no dentista botar de volta.
    -  Mas botar de volta como? 
    -  É um implante...
    -  Por que você não parte logo pra dentadura?
    -  E o dinheiro?
    -  Eles vendem à prestação... cheque pré, 18 vezes....
    -  Bem que era melhor, mas deve ter consulta do CPF e eu tô ferrado no Serasa...
    -  Tá ruim, não tá?
   -   Ruim? Isso foi quando podia piorar ainda mais. Agora ficou foi péssimo! Não estou aguentando!
   -   É mesmo, sô! Eu também! Tô indo comer na casa do filho casado combinei de eles guardarem o prato pra mim, porque        chego bem depois da hora do almoço, todo o dia.
    -  Por que?
   -   Porque comendo tarde, não preciso jantar. Antes de deitar - agora bem mais cedo porque o sono ajuda a esquecer a fome - bebo dois copos de água e como duas bolachas salgadas... bem,  do mês passado pra cá, só uma, porque duas o pacote acaba logo e comprar outro é caro: toda semana eles aumentam o preço!
    -  E de manhã?
    -  O moço da padaria guarda um pãozinho pra mim e me oferece um cafezinho 3 dias na semana, quando eu ajudo a lavar a louça.
    -  Parece que o imposto de renda vai subir: vão retirar aquela parcela de desconto dos idosos, sabia?
     - É mesmo? Ouvi essa história mas achei que fosse boato.
   - Nada! é uma coisa que o Presidente-Exercício disse, a tal parcela de sacrifício...
    - Sei. Fazer o quê? 
    -  Pois é. O quê?
     

PREZADO SR. CHICO BUARQUE


      UM dia vosmicê cantou:
                     "Ai esta terra ainda vai cumprir seu ideal
                      ainda vai tornar-se um imenso Portugal"
     
      Depois de tantos anos curtindo sua música, paro e penso: "ué! Quem dera, Chico, quem dera!!

E TUDO RECOMEÇA NA SEGUNDA-FEIRA - I I




      NÃO. Não dá câncer não. Vômitos e violentíssimas erupções alérgicas, diarréias ininterruptas e abundantes desitratando o nativo e o levando, no fim de pouco tempo, a óbito. Cura não há. Sinto muito, nem tratamento.

E TUDO RECOMEÇA NA SEGUNDA-FEIRA











      BRASIL É EXTREMAMENTE DANOSO À SAÚDE E AO BEM-ESTAR HUMANOS.

domingo, 5 de junho de 2016

PARQUES DAS CIDADES



      CAMPO DE SANTANA, Praça da República, Central Park, Bois de Boulogne, Vincennes, Parque Gorki, Parque de Brasília, Parque da Cidade (Belo Horizonte) e milhares de parques, talvez milhões, em cada lugar do Planeta Terra. Muitíssimos com pomposos nomes, homenageando essa e aquela figura, na maior parte algum político que ninguém mais sabe quem foi. E que por isso mesmo nunca é usado pela população. Nós, o povo, sabiamente simplificamos essas coisas tolas, chamando de  parque da cidade, parque do cedrinho, da cachoeira e tantos outros afetivos apelidos.
      O primeiro da minha lista é o que primeiro guardei na memória: a lembrança infantil retrata um lugar de grandes árvores e curiosos bichinhos na vegetação rasteira. Cotias, alguém me explicou e nunca mais esqueci. Entre as aléias sombreadas, revestidas de areia fininha ficavam canteiros onde além das árvores, existiam algumas construções de pedra cuidadosamente lavrada. Enormes tijolos do material, algumas paredes com janelas de molduras de madeira escura e vidro. Cobertura de telhas de barro em todos. Talvez fosse do maior deles que viesse uma algazarra infantil. Identifiquei o som, fui andando em sua direção e fiquei deslumbrado: era uma escola, jardim de infância o adulto que me acompanhava explicou. Eu quero estudar nessa escola, pedi. Foi uma das primeiras decepções que experimentei: era longe, era difícil chegar, era impossível me levarem diariamente para ali.
     Depois, ao longo da vida, fui conhecendo muitos e muitos outros, nas diversas cidades em que morei. Nessas, a mais agradável e surpreendente foi sem dúvida Curitiba. No Centro da cidade, várias e muito agradáveis grandes praças, como General Osório,  do Passeio Público e seu interessante zoológico,  Praça Santos Andrade com seu belo prédio da Faculdade de Direito da UFP,   Generoso Marques,  Tiradentes, tantas outras. Nos bairros, entretanto, ficam as jóias da coroa: os diversos parques, grandes áreas destinadas ao lazer e ao convívio popular, provando que no Brasil existe, sim, provas sobre o que o planejamento urbano correto pode fazer. Barigüi, Barreirinha, Pedreira Paulo Leminski, Tingui, o belíssimo e novo (ao menos para mim) Parque Tanguá, e muitos outros. Curitiba já era quando lá morei há muito tempo e continua sendo a melhor cidade brasileira de grande porte. E um detalhe importantíssimo, ao menos para mim: não percebi cercas, grades, empecilhos de qualquer espécie que dificultasse o acesso, em nenhum deles.  Dedicação à causa popular e liberdade, receita infalível de exercício da cidadania.

sábado, 4 de junho de 2016

ISSO LÁ É COISA PARA SE LER EM UM SÁBADO?

      Antes de dormir, peguei ao acaso um livro para chamar o sono. O autor, antigo jornalista, o Sr. Hildon Rocha é referido com muito respeito pelo seu trabalho por políticos brasileiros da mais alta estirpe. O livro chama-se "Memória Indiscreta". Uma coletânea de artigos e ensaios dos tempos em que Hildon, ainda jovem, acompanhava a Câmara dos Deputados em funcionamento no antigo Distrito Federal,  Palácio Tiradentes. 
      A medida que ia lendo, meu espanto também aumentava, até o estarrecimento: a narrativa era sobre o processo (acontecido em 1947/48) destinado a colocar na ilegalidade o antigo Partido Comunista Brasileiro, o PCB e consequentemente cassar o mandato popular dos seus representantes eleitos. As manobras, os discursos parlamentares, as tergiversações, as traições, resumindo: toda a sórdida receita que o parlamento usou na ocasião, lá estava. Poucos parlamentares que honravam o voto recebido, versus  imensa maioria de oportunistas maiores e menores, resvalando na marginalidade abjeta de interesses escusos. Igual ao que agora há pouco testemunhamos.  Os atores do drama, inclusive, usavam as mesmas palavras que foram cuspidas pelos parlamentares atuais, quando da sessão destinada a aprovar o pedido de impedimento da Presidenta Dilma Roussef.
      De repente comecei a ver, no relato do jornalista retratos de corpo inteiro dos atuais deputados e deputadas: o fascista espumante, a madame interiorana que "homenageava" o marido preso na manhã seguinte, os patriotas de momento   (que corroboravam o conhecido ditado "o patriotismo é o último refúgio dos canalhas"), mal embrulhados no Pavilhão Nacional - não seria o caso de haver lei que coibisse o uso desse Símbolo da Pátria como fantasia de filibusteiros? - os "filhinhos de papai", herdeiros de mandatos por uma espécie de "direito divino" dos coronéis, na verdade jovens facinorosos descendentes de oligarquias mafiosas que até o presente momento infestam a política provinciana, todo o elenco das mazelas acumuladas desde que optamos pelo sistema republicano de governo autoritário e injusto. 
      Larguei de lado o livro e tentei dormir. Desanimado, desiludido e bastante irritado, custei a pegar no sono reconhecendo, ainda mais uma vez, que em nações como a brasileira, onde não existe ainda vivo e atuante o cidadão, inexiste da mesma forma a História, mas uma farsa ominosa repetida e repetida infinitamente.