sábado, 2 de novembro de 2013

FINADOS

     In illo tempore, quer dizer, nos tempos de D. João Charuto (*) ou melhor: na minha infância, dia 2 de novembro ou "Finados", era um dia em que a religião esmerava-se em pompas e cerimônias fúnebres. Mostrava com isso suas origens. Sempre tive para mim que as religiões originaram-se no espanto, sofrimento, e no caráter indecifrável da morte. Daí o consolo de, sem exceção, todas falarem nas recompensas e na felicidade que advirão ao ser humano depois dessa "passagem" efêmera e de certa forma uma espécie de vestibular para a bem-aventurança eterna da "verdadeira vida".
     A vida moderna mudou bastante esses costumes. Naquela época remota, até as rádios (sim! nem TV existia!) tinham parte importante no "clima geral", uma vez que só podiam tocar músicas clássicas, que em nossa ignorância pueril chamávamos de "música fúnebre". Multidões iam aos cemitérios, o comércio de flores e velas era inflacionadíssimo e nem por isso deixavam de vender todo o estoque. Nas ruas raros transeuntes, silenciosamente iam aos poucos desaparecendo nas esquinas. 
     Os céus, parte importante dos cenários religiosos, colaboravam com uma chuva fininha e perene, um friozinho que não dava para espantar, mas levava a todos a uma dimensão meditativa e introvertida, só interrompida pelos sons de orações e hinos cantados em diversos idiomas.
     Entrava-se pela noite com esses sentimentos a envolverem o mundo. Talvez alguns jejuassem, não sei. Só me ocorre que nós, as crianças,  íamos dormir algo pensativos, perguntando-nos o que seria da nossa vida e da  própria sobrevivência de cada um, no intolerável sentimento de perda e abandono que sentiríamos no caso de a morte dos pais. Pais jamais deviam morrer! Mas sabíamos, no fundo de cada um, que isso era inevitável. 
     O sofrimento antecipado por essa futura tragédia  era tão insuportável, que ficávamos exaustos. Logo o sono vinha e um radioso 3 de novembro aparecia no horizonte. E tudo aquilo era imediatamente substituído pela avassaladora fome de viver que cada criança possui. Essa, sim, a fé primordial.  
    
(*)   graças à internet fiquei agora sabendo que a expressão "nos tempos de D. João charuto" refere-se à antiga época de D. João VI, quando começou a se fabricar charutos no Brasil, certamente com autorização da "régia autoridade" 

terça-feira, 23 de julho de 2013

OUTRA VEZ!!

 









   Não pensei em tornar a ver o fenômeno, hoje foi na televisão - mas tudo bem: nevou em Curitiba! aliás o Sul do Brasil parece estar totalmente tomado por uma "nevasca" (subtropical, vá lá, mas neve é neve em qualquer lugar): aqui, é verdade, dura menos que nos países do Hemisfério Norte, muito mais próximos do Pólo Norte do que os do Sul, onde as terras e os Continentes ficam mais perto do Equador.       
   Mas achei muito bonito ver a terra branquinha novamente, tal como vi (e contei aqui, ver crônica do dia 15 de maio de 2010). aquela havia sido bem no dia do aniversário de 5 aninhos do meu filho mais velho, hoje um senhor (nos dois sentidos) músico barroco de mais de quarenta. Fazendo sucesso em Europa, França e Bahia, mas principalmente em São Paulo, onde reside. E tal qual outro grande músico brasileiro, o pianista Arthur Moreira Lima, torcedor emérito do ínsígne Fluminense, o maior time de futebol do Mundo! Existe com certeza uma forte relação entre o ritmo enleante da música e a harmonia com a bola que cada vez mais demonstram nosso craques tricolores.
      Outra coisa boa foi ver o "Jornal Hoje" horário das 13h15m noticiar direitinho o acontecimento, principalmente os locutores, que por diversas vezes mencionaram o lapso de tempo ocorrido entre aquela "nossa" nevada e a de hoje: 38 anos! Já o "Globonews" tsk tsk tsk... isso é que dá não capricharem na edição! Divulgar que há 50 anos não nevava em Guarapuava, quando a neve caiu - e como agora - no mesmo dia nas duas cidades! Mas que "bola fora" pessoal!
     Outra coisa que ocorreu na madrugada seguinte foi que a "geada negra" acabou com os restos do café paranaense, que vinha sendo trocado lentamente pela soja. O fenômeno climático é que a seiva dos vegetais congela dentro dos caules e quando esquenta novamente, o degelo simplesmente estoura os vasos condutores e a planta morre quase imediatamente. com isso o Estado rapidamente erradicou os cafezais que ainda restavam e financiou os agricultores, que se voltaram para a soja e a cana de açúcar. Com isso o Paraná, que vinha "acelerando na grande curva do progresso" virou o Estado-Potência que é hoje, mais rico que muitos países do planeta. Se Fosse jovem novamente acabava voltando para lá: pinhão com mate, Vivaldi com "as Quatro Estações",
 huummmm... 

domingo, 14 de julho de 2013

PROIBIDO BUZINAR


 


 
                                      

                                                 Paulo da Matha-Machado Jr.

 

 

 

 

 

  

 

U T I

 


          Fui acordado por uma voz  de mulher. Era um som bem desagradável e atemorizador. Apesar do tom baixo, quase inaudível, dava para perceber a  ameaça contida no jeito de cuspir as palavras.  A enfermeira raspou-se.

Ninguém nunca soube explicar esse medo, mas é atávico: qualquer um, desde a primitiva horda, sabe do que eu estou falando. Tanto sabemos que a lembrança acudiu-me com toda a nitidez, embora tão arcaica. Quase uma epifania. E causou-me extremo desconforto, que somado aos da minha atual condição, todo enredado de fios e preso  naquele leito de hospital, ficou ainda maior. Para disfarçar tentei assobiar, enquanto procurava a tal mulher. Mas não conseguia soprar direito, com aquele tubo naso não-sei-o-quê,  logo acima do lábio superior. De qualquer forma, o esforço deve ter alterado algum  mostrador   no posto da enfermagem, pois sem tirte nem guarte lá veio uma delas. Sobrolho franzido, nem precisou falar, essa uma.

          A última coisa que me lembro foi aquele mal-estar enorme. E agora, neste depois, o olhar. O olhar consolador e perfeitamente insultuoso do estranho na cama ao lado. Companheiro de cela na prisão, a soturna UTI de um  soturno hospital, onde eu aguardava ansioso que minha neta e seu poderoso amante viessem me resgatar. Enquanto isso não acontecia, mostrei claramente ao vizinho de cela o quão desagradável era aquele seu olharzinho desconsolado/consolador. Ao mesmo tempo tentava espantar aqueles pássaros. Voejavam agressivos à volta do leito. Eram dezenas, cores vibrantes, penachos, lindos. Os bicos aduncos e ávidos no entanto, mostravam a maldade. Se eu parasse de bracejar seria bicado, cada um levaria um naco de carne, da minha carne, do meu corpo. Um horror. Levei outra reprimenda da atendente, não se agite tanto, algum reloginho de lá havia me entregado. eu estava muito inquieto no sono, não era bom: devia ficar  mais tranqüilo, relaxado. Nem me ocorreu de perguntar qual a maneira de conseguir isso, o controle do próprio sono.   

          No mesmo instante dessa lôbrega aparição, os pássaros escapuliram-se não sei para onde, assim como sequer imagino de qual lugar saiu essa história de neta com amante, nem filhos tenho. Ansiedade provavelmente. Ou alguma espécie de  idiossincrasia, tendo em vista minha condição de enfermo. Delírios disse papai. Delírios. Sobrolho.

          E a mulher que me acordou com seu discurso raivoso? Acho que foi da outra vez, ainda lá na Ilha. Aquela confusão quando eu fui atropelado e o motorista bêbado ainda ficou me xingando. Havia uma vizinha, conhecida de vista. Ela sabia quem eu era, conhecia meus pais. "Madame" como a chamávamos, ficou uma fúria com o sujeito, passou-lhe uma carraspana naquele seu sotaque francês, os rr guturais as sílabas misturadas de cambulhada, o bêbado raspou-se.

          Não tenho a mínima idéia de como "Madame" veio parar no Século 21, ainda jovem - na época eu a achava velhíssima, quarenta anos? - em um hospital desta cidade. De qualquer maneira aguardo ansioso a sua volta. Espero que ela me defenda de um próximo ataque dos pássaros ou da enfermeira de bico adunco. Não seria de todo mau providenciar também uma proteção que isolasse minha cama do leito vizinho e seu ocupante hipócrita deslavado.

          Aí, o vulto em pé ao lado da cama continuou me olhando. Cada vez mais compassivo, cada vez mais parecido com alguém que eu sempre me amaldiçoei por nunca ter tido a coragem amar. Sem nunca querer ter sabido muito mais do que o corriqueiro. O superficial. A medida que fui crescendo, a esquivança também ficou maior,  constrangido e cerimonioso distanciamento até que. Morreu? Enterre-se! Não foi falta de compaixão, meu pai, foi angústia.

 

 
 

 


C O M A


 

          Ossos do ofício. Paciência. Comedimento. Moderação. Tão modesto nos paços de Luculo/ como no tonel do grego/ nem o transtorna a aragem da ventura/ nem a desgraça o abate. Aguardar com serenidade, já já viriam desfazer aquele terrível engano. Nunca tive problema cardíaco, doutor, não precisa mexer aí não, nem colocar essa molinha. É; não doeu, bem que o senhor falou. Vai ficar para sempre ou o organismo absorve? Ateroma, é? E esse tal “stent” aí, dura mais quanto?

 Canto? Memória? Consciência? Metáforas? Lembrei-me do carteiro, querendo ser poeta e casar com a Linda da Aldeia. O livro, como sempre, era bem melhor, mesmo com toda a publicidade sobre o filme.  Diamantina foi uma miserável feitoria do rei português e três ou quatro sevandijas. Um explorava as águas à procura do brilhante, o outro contava, media e pesava os achamentos, um terceiro ficalizava os dois, que por sua vez espionavam este e todos se odiavam. O resto do povo roía couro com raiz de capim. Um dia acabou e quem pode foi embora, quem ficou achou foi bom, o capim tinha  ao menos gosto de liberdade, já não sabia a amargo. O livro. Eu li o livro. Tinha mar em Diamantina? Minha mãe sempre achou que sim, mas ficava escondido e por isso a gente não via. Prestando bem atenção, dava para ouvir as ondas. Eu me lembro que para chegar na praia o carteiro precisava guardar a bicicleta e dar uma imensa volta. O poeta talvez voasse, pois lá o aguardava, gordo como um leão do mar. Descalço, com as pernas da calça enroladas em duas ou três dobras, todo pimpão refestelado na areia. Olhando as ondas. Eva viu a uva. Ivo... Meu Deus! Quanta falta de assunto! Só um instantinho, eu preciso acabar de pensar isso aqui sobre o que estou sonhando, depois a gente vê isso de laboratório, se não a gente pode voltar logo a dormir logo depois mas não adianta mais: o sonho já sonhado foi embora e nunca mais. Tirar sangue. Ai! Essa agulha tão fundamente no pulso, à procura de uma artéria, isso dói! Sem contar que da última vez fiquei mais de mês com o punho roxinho roxinho, ia antebraço acima até quase o cotovelo. Aquela mancha azulada, sei lá, muito esquisito. A soma dos óxidos é igual ao quadrado da distância do Oiapoque ao Chuí, do lado de lá muda para Chuy, gasometria dói, caramba! Quando cai, acabou. Finitus est.

 

Calado,  ar circunspecto, em pé junto ao meu leito com esse velho chapéu de feltro entre as mãos você está muito sinistro. Parece um tatupoiú  conhece? O peba? papa-defunto, sô! É! Com esse terno escuro aí então... Sempre vi mamãe implicar muito com você e então desde pequeno eu achei que também podia. Hoje eu penso que nunca fui muito capaz de encarar o tremendo desafio e a extrema responsabilidade de ser primogênito, nos termos e condições envolvidas. Mas fui, muito a contragosto, até descobrir aquele irmão mais filho que eu, pois mais velho. Não chegou a termo, é verdade, mas durante um tempo ocupou corações & mentes dos velhos. Quando eu soube da existência desse evento, sabem o que  fiz? Transferi prazerosamente para ele o título e todas as prerrogativas do morgadio. Mas não dei publicidade a tal ato, talvez pela extrema racionalidade do mesmo.  Por isso menti antes, mas sou pai, sim. Neta com amante ainda não tive esse prazer, principalmente se ele fosse um cara assim que desse as cartas em alguma safadeza dessas bem lucrativas. Posso tirar as castanhas do fogo usando  a mão do gato e ainda taxá-lo de ladrão... a vampira do laboratório (feiosa ainda por cima)  mexe e remexe com a imensa agulha.

Dona Tina passou rapidamente por aqui, com seu cesto de embira trançada na cabeça. Dentro, como sempre, alface, couve, almeirão, repolho, beterraba, as cores me atraíam, acabei quase vegetariano, talvez isso de agora, esse sangue e essas dores, tudo tivesse sido evitado se eu levasse até o fim essa tendência infantil; no lugar, cachaça, muito fumo de todas as espécies e origens, andei cheirando um pouco também, fiz muita arte,  hélas!

Apesar disso conversamos bastante. Ela me contou que nas horas vagas, enquanto esperava crescerem as hortaliças e o marido voltar do armazém com a cachaça, lia. Lia desesperadamente. Soluçava e lia, procurava entender achava que devia ter algum sentido, uma lógica. Lembrei do cardume de um peixe chamado ubarana que um dia veio de encontro aos nossos anzóis. Era eu mais um tio que me ensinara a pescar, nada demais, ficávamos em cima de uma grande pedra no fim da praia: cocorocas, um que outro baiacu sem-vergonha que roubava iscas sem parar com aquela boquinha mole de lábios grossos e dentes serrilhados, às vezes cortava a linha, o danado.

Então, quase tão imponderável como sermos atingidos por um raio, vieram as ubaranas. Num assanho que precisava de ver. O mar fervia, e logo meu tio apanhou a primeira, e aí uma após outra fisgava o anzol, era só puxar. Cada um de nós pegou mais de uma dezena, de repente foram embora, voltamos para casa com aquela fieira de peixes, meu tio ria, mamãe nem acreditava. Mesmo assim fingiu zanga e lá fomos, eu e ele, para a beira do tanque, faca bem afiada, descamar e eviscerar os peixes. A lógica disso? Dona Tina lia e se desesperava, o marido bebia dormia e ela  e eu então, custei a aprender, sempre fui tapado, voltava feliz à pé para casa debaixo da via láctea, feliz ia dormir como um cãozinho sem memória.    

 


                                       AFTER HOURS

 

          Se Ivo viu alguma cousa eu não sei, mas o  vizinho de leito deixou de fazer sentido e minha neta e seu amante ministro imaginário pararam de fazer parte das minhas experanças e então nada mais  importava. Eu estava em um cubículo, miríades de fios, uns mais grossos outros nem tantos, cada um de uma cor, saíam do meu corpo em direção a  uma caixa onde se conectavam. Ela emitia um zumbido constante e muito satisfeita consigo mesma, parecia que através dos tubos e fios ela ia se alimentando do meu organismo. Era muito desagradável, não sei porque eu ficava imaginando um tigre sugando a presa.

          Além do zumbido do tigre havia um outro barulho, esse um constante ressoar de uma pancada surda, como um batimento cardíaco. Sessenta e tantos, setenta e alguma coisa, havia uma tela fosforecente na caixa. Um ícone pulsava no mesmo andamento, algo assim como um alegro maestoso. Era só eu me mexer e os números pulavam para oitenta e tantos ou mais. Tinha certeza, entretanto, que aquilo era só encenação. Havia morrido, caput. Alea jacta, Cloto, Láquesis e por fim Átropos

No entanto, dentro da modéstia que sempre norteou meus atos,  enquanto permanecia ainda ligado por tênues fios à minha existência terrena e não me desatava por completo do dito invólucro carnal, aguentei firme.  Ao contrário do que a maioria diz que faz, não permiti que minha alminha quase desencarnada  subisse  ao teto, mas sim que ficasse escondida e caladinha no chão, bem embaixo do leito hospitalar. Afinal nada mais kitsch que morrer e ficar por ali como um paspalho olhando a azáfama que lá embaixo ocorria. Teatro tartufo, arlequinada, aquele vaudeville todo.  Pior que isso só mesmo os programas domingueiros da TV, toda aquela estridência, pobreza de espírito e cafonice profunda e incurável, puro Mondo Cane.  Já a morte, a corriqueira morte, a cessação da existência, essa uma torna o biltre irremediável  num cadáver pomposo e digno de todas as homenagens. Assim falaria o velho Nélson, e ele tem razão.  Já houve época em que a pompa era maior ainda, lembro de féretros que paravam o trânsito da cidade, aquela lombriga enorme que nunca mais acabava de passar, a completa frota automobilística do município. Todo mundo tirava o chapéu e se punha em posição respeitosa, não importando o quão filho-da-puta tivesse sido o de cujus, cáspite! Falar latim e usar interjeições arcaicas é o cabível nessas horas,  Tia Mariana, tão bonitinha em seu caixão, coberta de margaridas amarelas, Tia Mariana lá se foi para a cova, ela com suas margaridinhas, tão contente que me deu um baita sorriso quando iam fechando o caixão, só faltou exclamar, rindo, “impagável!” Era o meu prêmio quando eu conseguia impressioná-la favoravelmente com meus escritos.

          Enquanto isso, vai ficando cada vez mais escuro. Perdi meus óculos e não vejo nada. Aproximam-se sombras e então  todos os meus mortos, inapeláveis defuntos, cada um mais feio e deteriorado que o outro. E que fedor terrível! Consigo ditingüir alguns, nessa penumbra atroz. Sei quem são e admiro-me de vê-los tão amigos uns dos outros. apesar de em vida não terem se conhecido, morei em tantos lugares! irmãos da minha mãe e do meu pai, vinte e dois espectros, haviam se agregado ao grupo. Era uma algaravia, entretanto pareciam compreenderem-se uns aos outros e estavam achando tudo muitíssimo agradável. Troço muito esquisito. Resolvi dar um mugido alto, quem sabe também uma forte mijada na areia segurando o pau e escrevendo meu nome completo. Cadê esse dito um, onde foi que se meteu, cutuco o pijama e pego um caninho cheio de vermelho amarelado ou pus avermelhado, o trem solta, e o cheiro é pior ainda, vem aquela disgramada me dá uma bronca, como é que vou revidar, todo ligado, penso em cuspir, sai uma baba boba, ela apesar da catadura limpa cuidadosamente. Afinal é uma boa moça, vai ver o cachaceiro em casa enche ela de porrada e os filhos, o maiorzinho disse que vai revidar ai meu Deus é cada dia mais problema e sofrimento, valei-me Pastor Zinho!

 


MIRABILE VISU!

 

Nada faz o menor sentido. O tempo. O tempo cessa, os minutos e as horas tombam inertes, completamente impotentes numa lassidão final. Os segundos deixam de correr e de serem contados um a um. O universo inteiro congela em um infinitamente pequeno e imperceptível ponto. Mas logo um pequenino feixe de luz escapa, expande-se pelo vazio e as engrenagens todas movem-se outra vez, da mesma maneira de sempre. Os mortos vão-se reintegrando lentamente à natureza, carnes, ossos, cabelos e dentes logo sais minerais e algum pouco metal, a compostagem processa-se, a memória esvai-se nos que ficaram, cada vez menos lembrado, se confundem as histórias, personagens se alteram e trocam de lugar uns com os outros e logo o sentido se perde.
 

 

 

                                               ENTROPIA


 As ubaranas saltaram rumo ao céu naquela faiscante tarde de verão e se imobilizaram no azul, formando ideogramas. Os pingos de água refletiram o sol e um arco da velha ao fundo completou o quadro. 
Brasília 2001-2013, julho,14.
 

         

 


 


 

         

quarta-feira, 26 de junho de 2013

NOSSA PRINCIPAL MOTIVAÇÃO

Humanos, nada mais que o egoísmo nos move. Este sentimento decorre do fortíssimo instinto de sobrevivência, aguçado desde que, há milhões de anos, descobrimo-nos tão frágeis e despreparados para viver e procriar.
     segundo recentes estudos firmados na genética e no mapeamento da espécie humana, houve um momento no qual ficamos a um tico da completa extinção.  Disso decorre que todos, eu disse, todos os modernos humanos descendem de uma única mulher. Esse momento ficou impresso no que denominam inconsciente coletivo, que eu não sei se existe mesmo. O que sei é que nosso extremo medo da transitoriedade da vida nos levou a religiões códigos morais e comportamentais, polícia, justiça e outras maluquices do tipo. No fundo homens e mulheres só querem  mesmo a auto preservação. Para que? ora, por que vocês acham que existem mais espelhos no mundo que seres humanos?
     Isso dito, voltemos ao egoísmo: é o mais intenso dos sentimentos, o único, mesmo, que nos move para a frente. sem desculpas, sem falsos dogmas morais/religiosos, tão bonitos e tão mais falsos que a própria falsidade em si. Apesar dos disfarces, das camuflagens, máscaras e fantasias, somos todos fascistas. Não só a "classe média", nomeada faz pouco pela filósofa Chauí. Esta classe é apenas oligofrênica, formada por imbecis incuráveis e possuidores de um DNA mais defeituoso ainda que o genoma "normal" ou com "só uma" falha na pauta. Somos todos filhos dessa pauta.
     Então ficamos assim: vamos para as ruas protestar, jogar pedra nos que representam a "autoridade" ou o "poder" ou o nome que quiserem dar: o melhor a fazer é jogá-las para cima e botar a cabeça na trajetória descendente. ADEUS.

terça-feira, 25 de junho de 2013

UM AUMENTINHO DE NADA... GENTE EXAGERADA! (ou "ANIMAL FARM")

"ESSE SISTEMA QUE JÁ ENLOUQUECEU AS VACAS,
ESTÁ ENLOUQUECENDO  OS HOMENS!"
(Ahmed Ben Bella)
 
     As vacas perante o insofismável facto de que o brejo fica mais embaixo, soltaram em uníssono um formidável "muuuu!" e piraram completamente. Para surpresa alegre dos humanos (e dos bezerros, "também seres humanos uai!") passaram a dar leite com ecxtasy, mijo com LSD, bosta da boa maria juana, carne que era viagra pura e bezerros de cinco cabeças, oito patas, quatro rabos  que já nasciam sabendo e topando qualquer abominação, ôba!
     E eis que então, em um dos mais sórdidos, disciplinados e ordeiros cantos da lata de lixo enferrujada um embrião aos berros declarou-se malparido, bruceloso, gravemente míope e que preferia ter nascido miss. Dito isso morreu e os restos da explosão contaminaram o rebanho adjacente, sem contar o racho no muro da represa. Diabo Louro, tomado de surpresa, tomou mais duas e gritou "currupaco!" deixando o diretor furioso pois era para dizer dos poderes do tal do povo, seu estúpido a lambedeira já tava na mão a mocinha loira passou e ele gritou de novo currupáco papaco! A mocinha andou em sua direção ele foi em vista dela, o Sol fulgia, a luz se foi. apagão de Norte a Sul, no Oeste os haitianos seguraram o barco, no leste tava todo mundo chapado,  o patrão disse que era o govêrno, esse falou mal da imprensa as TVs linkavam o planeta, reclames aos borbotões compre, pegue, empreste um dia paga, muuuito tempo para pagar!
     Quem falou o que de quem, informação, bêibi, it's power, see? Not powder, at least I only want do sell my fish ô cara!
     As meninas ficavam umas gracinhas de unhinhas pintadinhas de flores e ramos decorados, os pés imitando garras de carcará, que nem! As secretárias descolavam um extra posando peladas para as revistas, o asfalto só precisa de recapear aqui e ali, nada muito complicado, um que outro motorista mais afoito, pra não dizer tremendo de um barbeiro, e aí a família vem reclamar, ô seu Nélson tira quinhentos aí da verba de representação e diz que é pro enterro, saco, minha mulher me mata se souber, mas a gente vai, sim andar de  barco pelo Danúbio, promessa é promessa.
    
 
§§§§§al
 
 
 
     A tardinha cai: de dentro do barquino um peixe descomunal, mamando um potentíssimo charuto de cinza cor de cinza, sorri simpaticamente para mim. Aceno de volta e o cadáver do Clóvis Bornay (solteiro, natural de Maxambomba, RJ), passa boiando. coberto de algas do Mar de Mármara, plumas de Nilópolis, pérolas de Senador Camará(brasileiro, casado, sem mais informações), lantejoulas de Bonsucesso e paetês de Campo Grande. Então ele afunda com todo aquele peso e lá embaixo é a Prado Júnior(brasileiro, solteiro, estatura mediana, natural de Guapimirim, RJ) onde ele se estatela no asfalto e fica brilhando intermitentemente. Famosos e saborosos sanduíches de pernil revoluteiam aloucadamente e transam na frente de todos, pernil com pernil, sei eu lá mais o que com o que.
     Outros figurões de suspensórios e calças listadas bóiam por ali, extremamente sérios e anotando tudo. vai para a internet e depois foge para a Súcia, digo, Sueca - ops, cês sabem o que eu quero dizer. ELES NOS VIGIAM A TODOS!! Adereços, confetes, vidros de Rodo, e os metálicos também, serpentinas borradas mesclam um masssa informe e descolorida que entope a boca do Rio Carioca, O holandês (flamengo, nascido em 1493, amancebado) fica muito puto da vida: poluiçom,non! fom poluir o xw@#z* da z##w$& que os parriu!  Então a praça do Índio começa a encher,  e ele, Cuautemóc, em pânico depois de décadas de convivência e amizade, me confessa que nunca teve tempo de dar uma descida do pedestal e ir até o aterro da praia do Flamengo aprender nadar. Os esqueletos de velhas palradoras se põem a cantar à roda, é "parabéns pra você", aqueles púdôus fedorentos e de dentes apodrecidos de tanto açúcar, mordem a todos e a si próprios completamente loucos, mijando nos olhos de quem olhar, dizem que cega. Na hora de bater palmas sempre caem uns ossinhos aqui e ali, um pedaço de carne grudada, os peixes se aproximam e...
     No alto do Morro da Viúva galináceos de espécie vária começam a voar. A princípio tímidos, logo após temerários e velozes, e então tal como ases alemães da primeira guerra extrapolam com seus voluteios qualquer descrição. Grasnam crocitam, berram gritam, cacarejam desbragados enquanto cruzam o ar indo para os lados de Botafogo, onde capricham nos desafios a prórpria estrutura das máquinas, no caso seus frágeis corpinhos de ossos vermelhos "loopings", "tunneaus" mergulhos, parafuso, colisões frontais evitadas no ultíssimo instante, tudo isso vertiginosamente, rasgando o azul dos céus e e o verde de nossas matas. "Filhos da Puta!!" gritam os rasgados. Os mares plácidos iam falando besteira, como é do seu usual, mas tsunâmis fúlgidas, silenciosas e rápidas como Bruce Lee já adentravam a barra lambendo os beiços. Virá que eu vi.

 
 
 

 
 


domingo, 21 de abril de 2013

AINDA TÃO NOVINHA... (final)

     Hoje é dia do aniversário de Brasília. Compartilhado com o festivo dia de Tiradentes e do triste anúncio oficial do falecimento do Presidente Tancredo de Almeida Neves. comemorações estão ocorrendo em diversos locais, em maior número na Esplanada dos Ministérios, imenso espaço gramado entre a plataforma rodoviária e o  Congresso Nacional, margeado pelos blocos dos Ministérios. A participação popular espontânea é incentivada pelo Governo do Distrito Federal, que também atende pela sigla de GDF.
     Aqui é a cidade das siglas, falando nisso. Meu bairro, onde moro atualmente, chama-se SHIS; já fui morador da SQN 312, da 316, da SQS 106, da 405, da 416... Não lembro quando isso começou. antes, davam-se nomes aos lugares: o belo apelido de  "Cidade Livre" (que depois ganhou o esquisito nome de "Núcleo Bandeirante"), Rodoviária, Eixão Sul, Lago Sul, Lago Norte, etc. Será que foi na mesma época em que o povo passou a chamar o Presidente-Fundador carinhosamente de "JK"?
     Mas essa  liberdade  que desfrutamos atualmente foi conseguida a duras penas e ao longo de uma luta constante. Contra, principalmente, os militares que durante o período da ditadura governaram nosso país. Naquela infeliz época Brasília era vista como um quartel-general e administrada como tal. Os ditadores e seus estrategistas perceberam que um lugar (à epoca) isolado e de difícil acesso era ideal para que o poder pudesse ser exercido de  forma discricionária, como o foi. 
      O primeiro movimento popular espontâneo que deixou atônita a classe militar ocorreu durante o enterro do Presidente JK. Seu esquife, literalmente arrancado das mãos dos soldados, foi conduzido até o cemitério pelo povo, pelos "candangos" que graças a ele tinham pela primeira vez na história, se transformado em cidadãos, nesta  sociedade injusta e desigual.
     Já a primeira manifestação política foi o protesto estudantil-popular contra a invasão militar da UNB (a sigla da Universidade de Brasília) e a cassação de inúmeros professores, pugilo de mestres de todas as ciências, que responderam ao chamado dos inesquecíveis Darcy Ribeiro e  Anísio Teixeira. A repressão a esse legítimo movimento popular foi de tal ordem que a população brasiliense (e das chamadas "cidades-satélites) passou a se politizar: à luta pela melhoria das condições individuais de vida somou-se e mesclou-se pela primeira vez à consciência de que a obtenção de um bom padrão econômico não podia ser dissociado da aquisição de um grau de liberdade e poder popular.
     Esse verdadeiro processo dialético no qual hoje podemos reconhecer os postulados básicos de proposição ou tese, a sua antítese  e ao longo do tempo a dura construção sintética, foi por isso mesmo sistematicamente combatido como subversão ou esquerdismo e quejandos.
     Tal consciência, aos poucos adquirida, não é fruto de um desejo individual nem se consolida pela vontade de um grupo, por mais que este possa querer e disponha de meios - lícitos ou ilícitos - para sua concretização. O verdadeiro "ser político" não é o que pensa no resultado imediato de uma luta pelo poder: é aquele que, por meio de estudo, reflexão e inteligência percebe a direção que o povo  está tomando ao longo das décadas (ou mesmo dos séculos) e a ela responde, facilitando sua marcha.
     Pois isso, impulsinada pelo seu povo (composto de brasileiros de todas as origens) Brasília cresceu e cresce a cada dia. E apesar de haver tomado caminhos que sequer puderam ser imaginados pelos  patriotas brasileiros liderados por JK, no processo de modernização urbana e industrial de que o Brasil sempre careceu, cumpriu-se o destino dessa maravilhosa cidade: hoje é sem dúvida a meta síntese de um país que vem a cada dia se tornando uma pátria para todos os seus filhos.
     A atração que a cidade exerce sobre os despossuídos, os necessitados, a classe média empobrecida de Norte ao Sul, acaba por validar a concentração imensa, que faz a região periférica cada dia maior (e mais violenta [*]). Assim como a atração que a política passou a exercer nos criminosos de todos os matizes que para cá confluem graças a compra de mandatos populares e à manipulação dos desinformados. Esses dois fatores não podem ser vistos como "culpa" ou consequência de "alguma coisa maléfica no ar": é e sempre foi o sofrido e violento processo histórico pelo qual a colônia passou e ainda (em certas regiões "coloniais") passa, até sua total consolidação como nação soberana  e auto-governada.
     Desse modo a cidade de Brasília e o Distrito Federal têm dado ao país o exemplo e o estímulo necessário para o descarte desses bandidos: aqui já cassamos um Presidente da República, um Governador (este até mesmo preso durante um bom par de meses), Senadores da República e alguns outros malfeitores. Por isso a conclusão de que a Capital do Brasil vem atingindo dia-a-dia, o propósito de sua construção: o verdadeiro símbolo nacional. Venturi Ventis.    
    

terça-feira, 16 de abril de 2013

AINDA TÃO NOVINHA (parte II)

     ENQUANTO ISSO Brasília começava a crescer. E esse crescimento, junto a sua consolidação  como capital do Brasil fazia igualmente com que aumentassem as manifestações contrárias a sua própria existência. Houve primeiro um movimento de alguma intensidade, visando à volta da Capital Federal para o Rio; os primeiros interessados (do ponto-de-vista deles com muita razão) eram os  cariocas, privados do lugar hegemônico que ocupavam durante praticamente dois séculos; depois parte do funcionalismo público, acostumado a "bater o ponto" nas areias de Copacabana ou nos desertos da Barra; ainda a grande parcela da classe burguesa, recém assimilada pelo trato urbano, com pavor de tudo que levemente pudesse significar uma "volta ao roçado" (e em suas pobres cabecinhas Brasília era antes de tudo essa "roça").
     Havia ainda a necessidade de, através da desconstrução da política desenvolvimentista dos anos JK (o que significava, nestes termos, exatamente a total eliminação do getulismo a qualquer preço) , consolidar um movimento de luta pelo poder que afinal se traduzia pura e simplesmente na destruição de tudo que "cheirasse" a PSD e pior, PTB. em outras palavras, os fins justificavam os meios.(*)  
     A boataria tomava cada vez mais corpo: era a volta da capital; era a venda do DF para a ONU, que instalaria(!) a sua sede no Planalto Central; eram as condições climáticas que hostilizavam a vida humana a ponto de inviabilizá-la;   por fim um conjunto de falsas "notícias" que punham em constante tensão as populações deste (na época)ermo, e alimentavam o sentimento crescente de incompreensão e repúdio ao que Brasília-hipótese era, no lugar da Brasília-meta síntese que deveria ter sido.



(*) Afonso Arinos de Melo Franco, prócer udenista, mas com miolos e raciocínio no lugar de ressentimentos e complexos, a respeito disso declarou em entrevista a Maria Victoria de Mesquita Benevides (apud "O Governo Kubitschek - Desenvolvimento Econômico e Estabillidade Política - 1956-1961" - Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1976) que o papel da UDN como principal oposição ao govêrno, "revelava uma denúncia da ditadura, pelo Estado de Direito, mas também em termos de uma luta que, no final das contas, se convertia em bloqueio às atitudes progressistas de Getúlio Vargas no campo social. Em outras palavras, sob a capa do combate 'histórico' ao caudilhismo a UDN encarnava um bastião contra as chamadas medidas progressistas e, neste sentido, perdia o sentido da História" (p. 63, ob. cit.)

segunda-feira, 15 de abril de 2013

AINDA TÃO NOVINHA...

     Brasília fará cinqüenta e três anos dia 21, domingo próximo. Eu morei aqui pela primeira vez quando ela mal havia completado dois. Não dá para comentar as mudanças que ocorreram, nem é esse o meu intuito. Mesmo porque a cidade, nos últimos dez anos, está rapidamente se transformando em uma metrópole igual a qualquer outra grande cidade. E infelizmente copiando os problemas e não as soluções de fora. 
     Lembro-me de quando começou a ser construída, em meados da década de 50 do último século . Naquela época as forças de oposição ao governo, encabeçadas pela antiga UDN, usavam todo e qualquer pretexto para achincalhar com o Presidente Kubistchek e seu governo. A violência atingia seu paroxismo nos inflamados discursos do brilhante e maléfico deputado Carlos Lacerda, ex-comunista, depois conservador, reacionário e oportunista político, que usava toda sua força de influência (era dono de um jornal, a "Tribuna da Imprensa") para insuflar a idiotizada classe média brasileira.
     O resultado desse "fogo de barragem" veio com a eleição do presidente seguinte, o ex-Governador do estado de São Paulo, Janio da Silva Quadros. Um populista demagogo menor, sem preparo algum,  tanto político ou  intelectual quanto emocional para exercer a Presidência da República. Sem plano ou como estava na moda, alguma meta governamental, limitava-se a atos que demostravam seu atabalhoado pensar: proibiu desfiles de miss em vestes sumárias, briga de galo, criou um uniforme para o funcionalismo, em suma, seus atos demonstravam a triste realidade: eram atitudes de prefeito de pequena cidade interiorana.
     Sob frequente e cada vez mais intensos rumores de tratar-se de um dipsômano, acabou  renunciando ao cargo antes de completar dez meses de mandato, alegando pressões nunca esclarecidas suficientemente: as famosas "forças ocultas" (que a galhofa popular transformou em marca de cachaça). Jogou fora, assim, os milhões de  votos conquistados graças ao teatral apelo pela moral e bons costumes às citadas forças de uma idiocracia atarantada e apedeuta. Essa classe média subitamente órfã, aterrorizada pelos primeiros esgares e "pronunciamentos" políticos da direita militar(*), procurou  uma solução de consenso, no lugar de seguirem a receita mais simples e mais direta: a prevista na  Constituição do Brasil.
     Toda a crise provocada pelo mal-estar pós alcoólico do ex-presidente foi "resolvida" então com a habitual farsa histórica: optou-se pela chamada solução de compromisso e de um dia para outro, sem maiores debates ou considerações a respeito da profunda modificação estrutural  que isso  representava, veio o parlamentarismo. Assim, o Vice-Presidente da  República, Jango Goulart, "tolerado" com extrema má-vontade pelos golpistas, pode ser empossado como Presidente parlamentar, sendo o Chefe do Executivo o político mineiro Tancredo de Almeida Neves.
     Esse esfarrapado "penso", aplicado em antigas feridas não cicatrizadas, vindas de 1930 e de ainda antes, da própria Proclamação da República (que em realidade foi um golpe militar), logo mostrou a todos sua inviabilidade, enquanto o Presidente Jango, hábil e astuto político gaúcho, usava seu prestigio junto às classes trabalhadoras e sua hegemonia política dentro da aliança que o fez companheiro de chapa, na eleição de 1955. Dessa forma, em meio a crises constantes e cada vez maiores (houve mais dois Primeiros-Ministros após o primeiro), optou-se por um referendo popular através do plebiscito que, realizado em janeiro de 1963 (com "autorização" dos ministos militares) tornou extinto o regime parlamentarista, assumindo definitivamente as funções de chefe do Poder Executivo o Presidente João Belchior Marques Goulart (continua amanhã)
 
(*) Lembro perfeitamente que a imprensa dava um desproporcional e imerecido destaque às reuniões do "Clube Militar", onde imperavam as vozes tronitroantes e ameaçadoras de um punhado deles, que graças a esse destaque, conseguiam fazer empalidecer  a obediencia à  hierarquia, à disciplina e aos bons modos que os oficiais das três armas adquiriam em suas escolas formadoras.

sábado, 13 de abril de 2013

IDADE MÉDIA - II

     HAVIA naqueles tempos um costume: como às vezes o defunto "ressucitava" (sim! Os métodos de verificação do óbito eram extremamente precários!), era prática corrente passar uma cordinha presa em suas mãos por um orifício no esquife. do lado de fora esse cordão ficava atado a um badalo de pequeno sino. No caso de o "defunto" acordar dentro de um prazo de dois a três dias, bastava-lhe puxar a cordinha, fazendo com que o sino badalasse e ele fosse resgatado. Então temos aí a origem da expressão: "salvo pelo gongo" originalmente "saved by the bell".
    
     E PORQUE é que dizemos "está chovendo canivete" perante um aguaceiro daqueles? Naqueles tempos as casas todas (exceção dos palácios) não possuíam teto: as traves e demais componentes da estrutura do telhado ficavam expostas. Na ocasião dos temporais, era costume colocarem-se os animais domésticos a salvo de possíveis enxurradas ou seja: dentro de casa. Como o teto das casas era baixo, as aves domésticas, os gatos e até algum cachorro mais hábil escalava o madeirame para sentirem-se mais seguros. Só que às vezes um ou outro animal acabava despencando de lá! Os humanos então falavam: "it's rainning dogs and cats!" Ou como dizemos cá: está chovendo canivete! 

sexta-feira, 12 de abril de 2013

AVISO AOS NAVEGANTES

     PARA POSTAR UM COMENTÁRIO, clique em "nenhum comentário" e mande  brasa!               
 Pois é... também achei muito esquisito, mas descobri que é desse jeito...

MÊS DAS NOIVAS...

     Maio já bate às portas. Revistas e cadernos especiais estão sendo elaborados, mil e uma sugestões de vestidos, etc. etc. Só que...
     ... estava olhando velhos arquivos de um antigo computador e achei um texo assaz curioso, que reproduzo com minha linguagem própria, prolixa e pobre:
     Na alta Idade Média a Europa padecia da maior parte dos confortos modernos. Água, por exemplo, era do poço que geralmente ficava no meio da  vila próxima. Levar um balde com água pra casa, daqueles de madeira, já pesadíssimos quando ainda vazios, era um  grande problema e demandava imenso esforço físico.
     Então os banhos eram restritos a um ou dois por ano, pois não havia o hábito de os humanos usarem os riachos e ribeirões das florestas. Esses banhos eram tomados em ocasiões especiais, um deles certamente quando o inverno ia embora e a primavera começava. O cheiro de roupas usadas durantes os meses anteriores, e dos próprios corpos era de tal ordem que mal o mês de abril chegava, os humanos se apressavam em providenciar tais banhos, em uma tina ou bacia especialmente feita para isso (pelos mais caprichosos). era um banho comunal, a família inteira, a começar pelo chefe, depois os filhos homens, a mãe, as filhas e por último o(s) bebê(s).
     Um ditado até hoje muito usado, principalmente nos países de língua inglesa ilustra à perfeição o que acontecia: ao fim, a água da tina estava tão turva, imunda mesmo, que era fácil perder-se uma criancinha naquele "lodo". Daí esses povos dizerem até hoje: ''não atire fora o bebê junto com a água da bacia"!
     Com relação ao título de nossa postagem, a história, igualmente curiosa, é a seguinte: no mês de maio havia uma comemoração vinda ainda dos tempos do paganismo, adaptada (eita clero esperto!) pela igreja católica: a primavera entrava com força, os campos cobriam-se de flores, a temperatura ficava bem agradável. Os homens e mulheres festejavam esse ciclo natural com alívio e alegria, muita alegria e muito álcool. Uma farra só!
     Para que não houvesse muitos filhos sem pai, a igreja resolveu então promover (até à força, se necessário) os casamentos entre os parceiros notórios. Como nós, humanos, nos amarramos em um cerimonial mais elaborado, criaram os vestidos de noiva (também adaptação das antigas vestes das mulheres nas festas pagãs) a teatral  cerimônia eclesiástica e incentivaram o banquete festivo, depois da cerimônia.
     O buquê? Ah, sim, pois é: lembram do banho de abril? Em maio os corpos já começavam de novo a exalarem um cheirim...  então alguma daquelas avós da gente, bem engenhosa e sabida, antes de entrar na igreja apanhou várias daquelas flores espontaneamente nascidas no campo e trouxe o ramo bem junto ao corpo. O perfume impediu que o noivo e os demais presentes sentissem aquele cecezinho que já tomava conta do gentil corpinho da donzela(?) . As meninas casadoiras presentes ao ato logo logo perceberam a genial invenção da amiga e a partir de então o hábito universalizou-se  e as floriculturas passaram a aceitar cartão de crédito, de débito, cheque visado, pagamento em espécie, etc. e ficaram bem ricas! Saravá!!
     PS - hoje em dia as noivas preferem (e como!) o tal "banho de loja"!!





quinta-feira, 11 de abril de 2013

M E N D A N H A


 

                                                                       (escrito em 2012)

 

 

     O Rio Jequitinhonha, após nascer nas fraldas do Itambé, pros lados de Milho Verde e São Gonçalo do Rio das Pedras, desce com força o Espinhaço, precipitando-se em centenas de pequenas e médias cachoeiras e alguns canhões (como falam nossos primos portugueses). 

     Então ele encontra terreno mais friável e aí começa a cavar seu vale e a espraiar-se. Algumas vezes fica tão raso que aparece um vau, propício a travessia de homens e bichos. Daí segue até a interessante Belmonte, no litoral baiano. Antigamente havia lá um porto, que provavelmente servia aos cacaueiros, enquanto o Jorge Amado não inventava Ilhéus e a sua Gabriela.

     O primeiro povoado do vale é o Mendanha. De Diamantina até lá é uma descida só, uns quinze a vinte quilômetros de asfalto. Então você sai à esquerda da estrada e de repente está na margem do Rio. Aqui um pequeno morro; do lado de lá  uma colina, onde a vila se aninhou ladeira acima. No mais alto, a torre de uma igrejinha. Um presépio. 

     Antigamente os vaus eram passagem na seca. Começou a chover, o rio enchia e o jeito era esperar. Às vezes semanas, até meses. Os tropeiros que traziam algodão do seridó para as tecelagens mineiras ficavam impacientes, enquanto o rio não baixava e o prejuízo não parava de subir, tanto para eles como para os industriais, com as despesas extras. 

    Então chegou pelas bandas do velho Tejuco um inglês. Andou daqui pra ali, de lá pra cá, foi ao Mendanha, viu a situação e resolveu o problema: uma ponte entre o pequeno morro e o povoado na outra margem! Meteu mãos à obra, e logo logo sua propriedade estava concluída. Sim, pois naqueles tempos alguns particulares faziam pontes e até mesmo estradas, onde cobravam pedágio e ganhavam um bom dinheiro. 

     O inglês não foi exceção e, com o problema da subsistência resolvido e mais do que garantido, ficou sem ter o que fazer. Começou a passear nos arredores, viu uma mulata linda, apaixonou-se, construiu uma casa onde viveram, pertim da sua ponte. Como lhe custava deixar seus lençóis e cobertores onde um amor cálido o esperava, colocou na cabeceira (não da cama, da ponte!) uma caixa e ao lado um pequeno sino. Passava a tropa, o patrão colocava as moedas equivalentes ao número das animálias,  dos homens e então tocava o sino. O inglês, este, nem se dava mais ao trabalho de levantar: eu aposto que murmurava entre os lençóis lascivos: "caixinha, obrigado!".

     Quer mais histórias de Diamantina? Bem havia lá um americano que... ver postagem mais antiga (*).

    PS a ponte infelizmente não existe mais. Ainda a conheci, em maio de  1986, mas pouco depois veio uma cheia e lá se foi ela... 
 (*) "O Americano que Gostava de Passarinho" - publicada em 15/01/2013

sábado, 23 de março de 2013

OUTONO

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

S I L Ê N C I O
 
 
 
 
 
 
 

segunda-feira, 18 de março de 2013

SEGUNDA-FEIRA

 
 
 ao Pavel Bersan, primo que fez
tão cedo seu derradeiro vôo.
 
 
 
Esta hora da tarde faz meu mundo parecer uma ilha solitária.
Mas ao longe ouço um cão latindo
e pneus raspam ruidosos o asfalto na estrada próxima.
 
Entretanto é o momento em que os pássaros se calam
e misteriosamente o mundo pára.
 
O silêncio permanece um instante; o primeiro trinado após a leve pausa
 vem anunciar  a iminência de Vésper. Então vemos o rubro Sol,
ofegante após persegui-la por sigilosas órbitas frustrantes.
 
A algaravia arbórea retornou ainda mais forte,
enquanto o espaço perfila a fita indiana dos aviões que pedem pouso.
 Em inacreditáveis tons vermelhos  explodem os céus do Oeste, logo
esmaecendo lentos, pensativos, 
em dulce adagio
da mesma forma agora calam-se um a um
os pássaros dormentes.


sábado, 16 de março de 2013

SÁBADO

    

     Aquele poema do Vinícius não sai da minha cabeça. No coração trago há muito a interpretação dele e do Quarteto em Cy. O que me leva aos meus tesouros, guardados com o devido ciúme: um deles é um CD baixado da internet. As meninas, ainda em início de carreira, foram convidadas para se apresentarem nos EUA. Lá foi feita a gravação, que ganhou o nome de "The Girls from Bahia". Coisa mais bonitinha vira o Inglês com sotaque baiano! Fosse eu homem de negócios, logo fundaria uma rede de escolas onde se ensinasse essa fala, com seu cantar único: sucesso mais que garantido. Um detalhe: seria uma escola inteiramente gratuita!
     O que (outra vez!) me transporta a outro assunto: é válido franquear na internet as obras de arte? É uma interminável discussão, que vem dos tempos em que os trovadores eram pouco mais que escravos dos nobres, vivendo em seus castelos e na completa dependência deles. Isso veio perdurando até hoje, com a (importantíssima) diferença de que no lugar de um punhado de nobres e suas respectivas cortes temos os bilhões de usuários da net, espalhados por todo o planeta. E agora? 
     Dentre as inúmeras anedotas no meio musical, existe uma que acho a mais interessante: Haydn havia sido contratado pelos príncipes Esterházy, "donos" da Hungria e adjacências. Acabou o prazo do contrato mas o príncipe fingiu não saber disso e continuava a exigir dos músicos ao menos uma audição diária. Estes estavam muito incomodados, pois o inverno já chegava e com ele as imensas dificuldades de voltarem a suas respectivas casas. Pediram a intercessão de "Papa" Haydn (assim apelidado pelos outros devido à sua idade). Este teve então uma idéia genial: compos uma peça em que no último movimento os músicos iam deixando o palco um a um, até que por fim só restasse um deles, responsável pelo acorde final.O príncipe entendeu o recado e liberou-os para as merecidas férias.  
     Hoje a profissão de músico é mundialmente reconhecida e igual a qualquer outra. Mas quanto à criação, essa pode da mesma maneira ser "regulamentada"? Existe um direito de autor sobre um poema enquanto ele é composto? Ou uma interpretação especialíssima, na qual o músico alcança de maneira exata e completa a intenção do compositor? A discussão não acaba, e cá para nós é mesmo impossível vermos seu fim,enquanto a humanidade existir.
     Enquanto isso vou escutando meus disquinhos baixados  "para uso próprio e individual". Se todos os internautas assim o fizerem, a indústria do entretenimento acabaria. quem sabe a hora desses modernos barões não tenha também chegado? Príncipes: recolhei-vos a vossa insignificância, a vossa paupérrima ganância deixem-nos curtir as musas em paz! 

sexta-feira, 15 de março de 2013

GUISADO À FEIÇÃO DE MURILO



(“os cavalos da aurora derrubando pianos”

Murilo Mendes, “Poema Barroco”)

 

De antemão prepare os ingredientes de sempre:

Derrube tudo em uma caçarola bem amassada,

Espante os moleques e as moscas varejeiras e

Leve ao fogo branco.

Ou se preferir, brando.

 

Em uma forma simples derrube o  conteúdo

Mexendo de vez em quando.

Assista a novela das oito, mande o autor passear,

Peça à lindinha da vez pra namorar.

 

Na boca do forno, bento que bento é o frade.

Coma devagar, enquanto

Caminha pela estrada de Madagascar.

Serve quatro.

quinta-feira, 14 de março de 2013

ELEGIA

 
 
Não. Nunca mais aquela imperecível segurança de um mundo plenamente ajustado,
invisíveis e sólidas engrenagens, perfeitamente ajustadas umas às outras,
cada qual em seu exato lugar. E o planeta, ainda criança,
girando, eterno, em seu inabalável eixo invisível e sólido.

Assim como as vidas daqueles dois pais:
jamais se acabariam: jamais as vozes sempre a me consolarem iria acabar a
doce melodia. Como neste exato momento em que as ouço, enquanto
a noite se desdobra a Leste e a fimbria arenosa do Continente se ilumina passo a passo,
como luminosas lágrimas de um sol em manto escuro.

As vozes permanecem  prevenindo-me contra o sereno da noitinha
e as ouço circunspecto, a alma rindo coa
cômica controvérsia a respeito de sua natureza:
se cai ou apenas surge da crescente umidade do lusco-fusco,
misterioso fenômeno como a  luz azul de um pirilampo venusiano.
 
Pai e mãe afanados, pacientes, docemente irritados, docemente.
Suas vozes confundem-se  -  tanto tempo já! Não sei mais o que dizem,
apenas ouço as vozes e os sons que me acariciam e pesam
em palpebras dormentes.
Hoje o silêncio se desdobra em ecos de saudades pois o coração se conforma ao ver a noite cair,
essa noite que vem para todos e um dia se fará escura para mim também.
 

domingo, 10 de março de 2013

DUELA A QUIEN DUELA!

 
para os filhos e netos
 
QUANDO CHOVE é que faz bom tempo! Eu sei, eu sei. É preciso alguns equipamentos chatos como guarda-chuvas, mais atenção no trânsito quando dirigir, não vá o motorista a seu lado derrapar por conta dos pneus carecas, ih, esqueci de trocar o limpador de para-brisa!
Por aí vai a lista dos cuidados especiais, dia a dia maior: cada vez mais automóveis... E que chatice ter o sapato encharcado, os pés úmidos, o ar, a grama, o barro, os passeios mal conservados, o asfalto se dissolvendo com poucos dias de uso, ah! Esse período de chuva que não termina!
- Sem falar nessas catástrofes todas, causadas pelo excesso das águas e a intensidade dos apavorantes temporais de verão!
- Quanto a isso, a chuva não tem a menor culpa.
- Hein? Como é que é? Você por acaso já se esqueceu das recentes tragédias causadas por elas? Aquele “réveillon” na Ilha Grande, a enxurrada que matou tantos nas Alagoas, em Niterói, Angra dos Reis, na cidade de São Paulo, no interior do estado, e a maior dessas tragédias, a da Região Serrana do Rio, Nova Friburgo, Teresópolis...
- Pois é. Mas reparou na pontualidade dessas horríveis tragédias que você mencionou? Repetem-se sempre nessa mesma época; se não fosse a terrível perda de vidas humanas, a reincidência até poderia ser considerada monótona!
- Mas e daí? Como dizer que a chuva é “bom tempo”? Vá chover onde precisa, nas lavouras, nas roças, no Nordeste ressequido. Um pouquinho aqui na cidade tudo bem, o ar fica mais respirável, as árvores públicas ficam bonitas molhadas...
- 1966.
- O que?
- Há quarenta e sete anos. Foi em fevereiro? Talvez janeiro. Pouquíssimos hão de lembrar, nesse país de memória inexistente, mas na Rua Santo Amaro, ali no Catete, antigo bairro carioca, um deslizamento de barro e pedras “causado pelas intensas chuvas” matou num instante duzentos e tantos moradores de um bloco de apartamentos. Consternação geral, o Governo ia tomar enérgicas providências, o Cardeal rezou, nos terreiros houve cultos, assim como nos templos evangélicos. A vida seguiu.
Ano seguinte, dia 19 de fevereiro de 1967. Domingo a noite, muita chuva nos últimos dias. Todo mundo em casa, vendo TV, outros já dormindo. Então parte do morro Novo Mundo, na encosta fronteira ao chamado “Jardim Laranjeiras”, na rua General Glicério deslizou. Enquanto progredia na sua cada vez mais rápida trajetória até a rua, a lama e detritos de toda espécie transformaram em entulho uma casa e dois grandes prédios de apartamentos, cheio de moradores. Eu estava lá. Em choque, via pela janela da sala a lama escorrendo bem do lado onde havia um dos edifícios. Um sufocante cheiro de gás. Alguns braços e mãos que gradualmente paravam de se moverem.
Pouco depois enxerguei bombeiros que, sem qualquer treino para aquele tipo de evento, movimentavam-se feito baratas tontas, de um lado para outro. Pareciam ainda mais aturdidos do que nós, as vítimas. Ressentiam-se da falta de tudo, não possuíam qualquer equipamento que pudessem usar, nada vezes nada. Tentamos sair, a escada do pequeno bloco de 4 andares e igual número de apartamentos ficava do lado da tragédia. Conseguimos chegar ao primeiro andar, ainda bem que naquela época de férias, estava sem moradores. A lama misturada a entulhos, galhos, pequenas árvores, pedras, havia lacrado totalmente a salvação.
A custo conseguimos entrar no apartamento, arrombando a porta de serviço. Chegamos na janela, um soldado-bombeiro nos viu. Logo depois um graduado de acercou e disse que estavam dando prioridade aos feridos e que daí a instantes seríamos resgatados. Começo de madrugada e finalmente conseguiram um escada tosca, dessas de obras, que foi colocada em uma plataforma improvisada com tábuas em cima do barro. Não chegava até o parapeito da janela, mas perto o suficiente para que saíssemos amparados. Um pouco antes havia subido por ela um bombeiro. Maravilhou-se ao ver minha lanterna e a pediu emprestada para poder examinar as condições da parte de trás, onde eram os quartos. Voltou e disse que estavam inteiramente tomados pela lama, a única possibilidade de saírmos era mesmo pela “escada” Éramos onze pessoas, os mais velhos desceram com alguma dificuldade, primeiro foram resgatadas mulheres e crianças. Devo ter saído por último, não sei e meu grau de atordoamento e choque era tamanho que isso não me causou a menor impressão. O bombeiro saiu com a minha lanterna. As pilhas ainda eram novas, espero que tenha sido uma importante ferramenta nas mãos daquele esforçado profissional. Talvez, quem sabe? Ele possa ter salvo alguém com ela.
Dia seguinte a imprensa toda ressaltava e dava todo o destaque ao  “drama da moça Berenice” (nome fictício, história real), encontrada viva “por milagre” em uma fresta entre duas imensas lajes, mas que infelizmente a prendiam da cintura para baixo. Durante horas ela foi filmada e fotografada impiedosamente pela salivosa imprensa.
 Essa falta de profissionalismo e cuidado refletia-se nas matérias veiculadas, quer nos jornais, nas revistas, nas diversas rádios e estações de TV. O foco era inteiramente nos dramas pessoais, nenhuma investigação séria como era do dever da imprensa foi feita. As fotos claramente visavam ombrear-se com aquela velhacaria, os aspectos sensacionalistas, dignos de prêmios e louvores, passavam longe de qualquer objetividade, por menor que fosse. Um dos jornais chegou a infâmia de sem qualquer cuidado maior publicar na primeira página que uma enorme pedra havia se soltado do morro e produzido todo aquele horror. Havia até um desenho esquemático mostrando a pedra lá em cima dependurada, os imóveis atingidos, etc.
A verdade? Mais ou menos trinta anos antes, uma fábrica de tecidos que ocupava todo o imenso terreno, fechou as portas. Não sei o motivo. Então o terreno deve ter passado as mãos da União, que ali construiu diversos edifícios destinados aos militares, em uma ampla alameda de mais ou menos duzentos metros de largura. Um paisagismo cuidadoso, árvores, gramados, etc. Virou o “Jardim Laranjeiras”. O que quase ninguém sabia era que, durante o período de construção dos blocos, haviam descoberto logo ali, na crista do malfadado morro, uma grande jazida de areia saibrosa, muito utilizada nas obras. Tal jazida foi então totalmente utilizada, restando uma imensa cratera coroando a elevação. Se era legal ou clandestina? Cabe à antiga PDF (Prefeitura do Distrito Federal) dizer.
A tal cratera  foi sendo preenchida, ano após ano, com lixo e entulho de obras. Ao longo de décadas esse material foi se acumulando. Até carcaças de automóveis havia, misturadas aos descartes. Essa verdadeira “bomba vegetal” naqueles dois anos seguidos de intensos temporais foi paulatinamente se tornando uma gigantesca esponja, absorvendo incalculável quantidade de água misturada com os detritos. Em 1967 a lateral mais fraca, exatamente a que ficava voltada para o bairro cedeu. Incalculáveis toneladas de lixo, terra, pedra, lama e sabe-se lá o que mais se transformaram em uma avalanche mortal, que arrasava com tudo  sua trajetória descendente. E mais uma vez duzentos e tantos seres humanos perderam a vida naquela trágica noite.
- Puxa, nunca soube disso!
- É que possuímos uma imprensa muito cuidadosa com o povo, coitadinho: panen et circenses, as coisas dolorosas em uma semana são deixadas para lá, um mês ou pouco mais e tudo volta a ser como dantes no quartel de Abrantes...
- Como assim? -
 É tão somente isso: o povinho, coitado, não aguenta essas “fortes emoções” que as sucessivas castas de governantes completamente despreparados - para dizer o mínimo - nos “brindam”: Rio, Teresópolis, Angra dos Reis, Niterói, São Paulo como um todo, a infeliz (e pobre) Zona Leste, Alagoas, etc. etc. e etc. Isso sem falar no que sequer se comenta, como a Baía de Guanabara ter virado um grande esgoto, o rio Tietê idem, todo o litoral brasileiro impróprio para banhos de mar (todas as praias, do Oiapoque ao Chuí recebem esgoto in natura), e assim vai. A publicidade desses fatos seria desaconselhável pois não estamos preparados para outra realidade que não seja o “Deus é Brasileiro” “Bonito por Natureza” e outras camuflagens da nossa pavorosa condição de vida, diretamente provocada pela total inépcia e permanente ganância e desonestidade dos homens públicos. Isso começou em 1500 e...
- Mas não há solução? Se fuzilarmos eles...
- Quem são? Quem são eles, que somos nós? Por acaso isso é um jogo pueril, dois times disputando jogo de gude, bandeira, uma brincadeira de criança? Na realidade essas são coisas que acontecem com alguns povos mais despreparados ou menos afortunados, sei lá. Vem ocorrendo ao longo de todo o percurso do ser humano no planeta: vem-me à lembrança aqueles impérios da antiguidade, cada um mais intolerante, despótico, violento e desonesto que o outro? Não parecemos viver essa mesma triste realidade?
Posso parecer pessimista, mas minha é a firme crença que isso tudo não é passível de correção: somente o tempo, ano após ano, geração após geração é que podemos ir aos poucos melhorando: introduzirmos no âmago de cada um a firme noção de nossa cidadania: “nós, o povo”: esta última definição deverá valer para o mais miserável e o maior milionário da mesma maneira: talvez um dia, quando todos nos sentirmos dessa forma, alguma coisa poderá ter início: até lá vamos conviver com muito mais tragédias odiosas e revoltantes. Quando aceitarmos que o barco é um só, o time é o mesmo, o Presidente disso ou daquilo, o Prefeito, o Governador, o Vereador somos nós, uma nação começará a surgir
- Já somos uma nação...
- Não. Ainda não somos.
 
Brasília, março de 2013

domingo, 20 de janeiro de 2013

SAUDADES DO RIO



Ir para casa ao entardecer. A residência ficava na Rua das Belas Noites, uma quase imperceptível ladeira entre a rua dos Barbonos e o Passeio Público. Neste as árvores, já de bom porte, disfarçavam a lagoa aterrada dos tempos do Vice-Rei Luís de Vasconcelos, que para tal fim mandou arrasar o morro das Mangueiras. Que ficava bem ali, onde hoje é o Largo da Lapa. Foi também o Vice-Rei o responsável pela abertura da nossa rua, a qual o povo já está apelidando "das Marrecas", por causa do chafariz de Mestre Valentim, bem lá em cima, junto com os Barbonos.

Vizinha, a escola de música do Padre José Maurício, onde antigamente os jovens irmãos, o Príncipe e a Princesa tomavam aulas. Embora as infindáveis escalas praticadas no pianoforte ou no cravo amolassem um pouco pela repetição maçante, tínhamos paciência; a compensação vinha quando o próprio padre nos brindava com uma que outra de suas magníficas peças: Estudos, Oratórios Salve-Regina, Laudemus, etc. De onde igualmente fluía música, maravilhosa música, era de logo abaixo, na esquina da Rua do Passeio. Do Palácio do Conde da Barca (em cujo jardim existia um horto de essências indígenas e plantas curativas), dos estudos do maestro Neukomm, que coletava fascinado as modinhas de Joaquim Manoel da Câmara.

Após o jantar, se era dia propício e sobretudo fosse o mês de maio, as cadeiras eram postas na calçada e extasiados assistíamos o nascer da lua cheia, bem por cima da praça. Então compreendíamos o porquê de se chamar assim a nossa rua. Mesmo que seu nome virasse daí em diante um segredo somente partilhado pelos moradores, definia o privilégio que era morar ali. E aí conversávamos uns com os outros. Alguns vizinhos passavam, cumprimentavam e freqüentemente paravam para dois dedos de prosa amena. Oito, oito e meia da noite todos para cama que após esse horário só os desocupados, vadios e malandros circulavam. Com a polícia no encalço, que a cidade era tranqüila e assim a queriam seus moradores e governantes.

Amanhecia e íamos á procura do peixe, ali perto. Assistíamos entre preocupados e admirados (fazia mal, a água do mar!) alguns poucos banhistas que se aventuravam entre as cordiais ondinhas, na Praia das Areias de Espanha, logo depois do Boqueirão. Antes, é claro, já ouvíramos missa (ainda no escuro da antemanhã), ou na Lapa, ou mais longe um pouco, em Santa Luzia, bem na beira-mar. Para essa última era necessário caminhar, mas íamos distraídos com as ondas que morriam suaves nas areias da rua do Passeio, pois que era mesmo disso que se tratava: passear, gozar calmamente a vida nos ares da manhã mal rompida...



Brasília, maio de 2005.

Paulo da Mata-Machado Jr.