segunda-feira, 22 de novembro de 2010

POESIA É MUITO CHATO (final)


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Duas da manhã as solidões se esbarram nas ruas tristes e silenciosas. Daqui seguia o jovem revisor, de lá chegava o magro poeta. Que cruzou com o primeiro, saudou-o com um boa-noite firme e sonoro e continuou seu caminho. E, como sempre ocorre com os poetas, sabendo perfeitamente onde ia mas com a lúcida percepção de que não tinha a menor idéia se ia chegar. A noção de onde se quer ir, quase todos temos; já o convencimento da incerteza do chegar, esse só mesmo com a idade. Tal noção causa aos poetas a mesma resignação do lutar com as palavras. É uma luta de amor? É dor e amargura? É apenas trabalho? Nada disso ocorria, entretanto, ao jovem operário do jornal. Em sua orgulhosa humildade dos seres tímidos, corria para casa onde a mulher estremunhada ouviu aquela história maluca de um ônibus a toda e o poeta vizinho que passeava de madrugada cumprimentando com um sonoro boa noite, sem saber que ia virar estátua de banco da praia.(Brasília, agosto 2010)

domingo, 21 de novembro de 2010

POESIA É MUITO CHATO
(Continuação)

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Calhou que era o seu ônibus, nem parara direito no ponto e aquele barulhão de lata se soltando. Subiu, havia uns quatro passageiros, o trocador sonolento, o motorista adrenalina pura. Foi um pulo, logo a Cinelândia havia ficado para trás, o Aterro corria desabalado, aquelas curvas fechadas do Morro da Viúva metiam medo, nunca soube de nenhum que tombasse, vai que aquele, justo aquele ia ser o primeiro, parecia que o maluco do chofer tinha parte ou estava tomado, também podia ser que fosse pinga, Botafogo, Túnel, cortar a Praça Demétrio Ribeiro flechando rumo à Barata Ribeiro, de novo parecia que...


Os sinais todos verdes, ou era assim que o motorista os enxergava. Puxou a cordinha, esse aloprado nem vai ouvir ou só resolve parar lá na General Osório. Sofreou o monstro bem no seu ponto, o maluco saudou-o com o ar mais normal, um boa-noite sorridente de quem está em paz com a vida, haja entender! Nem quinze minutos durou o trajeto, talvez uns vinte quilômetros do jornal ao Posto 6. De longe a careca brilhava.


Já sabia que o poeta era seu vizinho, nem cinqüenta metros entre os dois prédios. Uma vez por semana ele ia até a garagem do edifício onde ele morava, vinha de longe um parente do porteiro, vendia carnes, comprava dois rins para a cadelinha. Era sempre de manhã, a claridade da rua fazia o interior semelhante a uma caverna escura. Os vultos e a algaravia guiavam seus passos, acabava acostumando a visão. Começava a distinguir uma que outra pessoa, aquela altura conhecida de vista, a carrocinha que se resumia o açougue clandestino lá estava, quatro ou cinco seres em volta, nunca o viu. Deparara-se com ele em uma outra ocasião, imprevisto lugar inesperada hora. O Hospital Silvestre tinha a mais linda vista da Baía de Guanabara, o poeta esperava na portaria, o cenho carregado, alguém da família, quem sabe. Seu primeiro filho acabado de nascer e o outro ali, provavelmente a se despedir de alguém.


Outra vez foi na praia: naqueles tempos os bares na avenida possuíam aprazíveis varandas, com cadeiras e mesas de vime, em um deles o pessoal de Minas fazia ponto. Lá estava aquela conhecida magreza, o terno escuro, o semblante esfingético. Sozinho em uma das mesas, teve vontade de sentar, pedir um chope e começar uma conversa lembrando aquela vez, há muito tempo, em que estivera em Itabira, ele e um amigo de lá, filho do... conhece? Tomaram banho de cachoeira, o ribeirão corria entre enormes pedras e de vez em quando despencava dois, três metros, a água rolava espremida, jatos e turbilhões, hidromassagem gratuita e ainda não nomeada como tal. Era só um rio da roça, dois meninos adolescentes, um sol de rachar. Talvez se pudesse chamar felicidade. (CONTINUA AMANHÃ)

sábado, 20 de novembro de 2010

POESIA É MUITO CHATO




A careca brilhava. Ela mais os pequenos óculos redondos conferiam-lhe um ar circunspecto, quase triste. Naqueles tempos em que as pessoas faziam cerimônia umas com as outras, isso bastava. Entendiam o recado e mantinham distância. Aquele canto do bairro, no final da praia, passava então a ser um lugar bem seguro, quase um esconderijo.

O jovem revisor do jornal, ainda funcionando no “Castelinho” da Avenida Rio Branco 110-112, vinha tarde da noite para casa. Às vezes ainda mais: calhava de o teletipo na redação começar a pipocar - algum maluco fizera um desatino qualquer do outro lado do planeta – logo vinha a ordem: pára tudo; segundo clichê! Ele e mais vinte colegas ficavam fumando, tomando café, fumando, contando piada, fumando e esperando descer o telegrama, já retrancado e com um “lead” que, no mais das vezes, mostrava para quem tinha um mínimo de experiência o cansaço e a pressa do redator em se ver livre daquilo.

Então descia a matéria: um pequeno desvaire lá no cu-de-judas, mas contendo os ingredientes clássicos que, bem editados, ajudavam muito a vender jornal: uma coisa tola, quando objetivamente considerada, quase uma novela de folhetim e seus ingredientes pueris. Na redação já se sabia que não ia passar disso: nada que justificasse tanta gente recebendo hora extra. O velho Ribas mandava todos para casa, ficavam só ele e mais um, nas oficinas dois linotipistas mais experientes a postos em seus dragões fumegantes. O resto, aquela azáfama. Duas dezenas de homens, algumas poucas mulheres, muitos nem mais tão jovens. Parecia saída de colégio.

Alacridade breve no início da madrugada, a avenida Rio Branco voltava a ser um bêbado perdido do último transporte, um monte de papel sujo indo daqui para lá, de lá para aqui. Às vezes o vento vinha do Obelisco, de outras encanava na Praça Mauá, resolveram fechar com umas grades a Galeria dos empregados do Comércio, de manhãzinha eles tiravam para o povo poder passar, o bonde acabara há pouco, os trilhos começaram a ser retirados, depois deu preguiça e foi mais fácil cobri-los com uma grossa camada de asfalto. Daí a pouco brilhavam novamente ao sol, um perigo para os pneus e a dirigibilidade dos automóveis. Os ônibus elétricos entraram em campo, logo foram apelidados de “chifrudos” pelo povo. Vira e mexe um dos chifres saltava fora do fio, ficava aquela imensa haste metálica balançando ameaçadoramente, o trocador descia, havia duas carretilhas na traseira, às vezes era necessário usar de muita força para desenrolar o cabo e colocá-lo no lugar.

O Bobs do Avenida Central passou a funcionar a noite toda, um dos melhores era o sanduíche de pasta de atum, era chique dizer-se “atum sálad”. Os balconistas divulgaram o neologismo híbrido gritando o disparate para os sanduicheiros, o jovem revisor logo aprendeu e ganhou a simpatia do pessoal: de vez em quando, a porção era um pouco maior que as demais.   (Continua amanhã)

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O TEMPORA...

     Está novamente aberta a Temporada de Caça ao Cargo. Peralvilhos antigos, velhos e conhecidos casquilhos, todos se aprestam. Uma palavrinha aqui, um jornalista amigo ali, uma notinha plantada, um boato... Nesses momentos lembro Tancredo Neves Presidente eleito, a um desses curiosos espécimens humanos, que lhe dizia estar muito assediado por amigos e correligionários que davam sua nomeação para um ministério como consumada, convite feito pelo próprio Tancredo. E perguntava a este o que deveria responder aos outros. "Diga que você foi convidado por mim, meu filho, mas infelizmente não pode aceitar"...
     OUTRO que vêm-me à mente é o certeiro Artur Azevedo, um cronista bastante esquecido, mas que teve seu momento de Estanislau Ponte Preta,  e fama talvez ainda maior do que deste último, no Rio de Janeiro de fins do Século Dezenove. Admira-me sobremaneira a atualidade de seu epigrama "Velha Anetoda":

"Tertuliano, frívolo peralta,
Que foi um paspalhão desde fedelho,
Tipo incapaz de ouvir um bom conselho,
Tipo que, morto, não faria falta;

Lá um dia deixou de andar à malta,
E, indo à casa do pai, honrado velho,,
A sós na sala, diante de um espelho,
À própria imagem disse em voz bem alta:

- Tertuliano, és um rapaz formoso!
És simpático, és rico, és talentoso!
Que mais no mundo se te faz preciso? -

Penetrando na sala o pai sisudo,
Que por trás da cortina ouvira tudo,
Severamente respondeu: - Juízo! -"

      Cá para nós, não parece dirigido a certos personagens da cena política dos dias de hoje?


HAI-KAI




PRIMAVERA

trilha de terra

caminho enganalado

flores de flamboyant

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

PALAVRAS...

          Imagens. Quando um ser humano genial como o argentino Quino consegue exprimir em singelas imagens o que talvez não conseguiria dizer em um "post" imenso, calha mais é publicar seus cartoons, e dizer: modestamente, assino embaixo!








                                                                           




Paulo

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

E A FRANÇA, MAIS UMA VEZ, SAIU NA FRENTE...

EM 1914 o "Almanaque Parisiense" (que nada mais era que um dos popularíssimos folhetos de propaganda de laboratórios farmacêuticos, antigamente distribuidios nas boticas) publicou o anúncio abaixo reproduzido. O assunto só agora volta à baila, com o referendo californiano sobre a liberação da canabis e - coisa de menos de vinte anos -  com a permissão de uso em vários países europeus.
     Sei não, mas o que me parece é ser um daqueles remédios para todos os males, mais conhecido como PANACÉIA. A maconha provoca um estado eufórico transitório e, por isso, é  prazeroso usá-la. E tenho dito.