sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

O CINE IPANEMA, O ITAMAR E O DA RUA DIREITA, NO TIJUCO

   


     O ÚLTIMO cinema do mundo acaba de fechar as portas. No Brasil,  eles não existem mais. Ruínas que acompanham outras, de tempos que nunca mais. Aventuras que resvalaram para algum vão obscuro, atrás dos velhos móveis guardados no sótão.
     Na casa de meus avós, na rua de S. Francisco, havia um porão. Depois que os escravos foram embora, vovô mandou derrubar os adobes que separavam os cubículos, varrer bem varrido e cobrir todo o piso com seixo rolado. Com o tempo a poeira acamou, virou terra e soldou as pedras. ficou bom. 
     A última vez que fui lá encontrei dezenas e dezenas de canastrinhas de couro, daquelas que se usavam antigamente para carregar roupas e demais pertences no lombo das animálias. Achei também centenas de cartas de primos, tios, e parentes arcaicos, dos tempos de Nosso Senhor D. Pedro. Os selos eu tirei cuidadosamente dos envelopes, lembro de uns "olho de boi", vários "olho de cabra" e outros menos afamados. Sumiram depois, dos meus guardados, e nunca mais pus os olhos neles.
     Fiquei sabendo no fim do ano passado que demoliram a casa, junto com outras quatro ou cinco em ambos os lados. no quadrilátero será construído um enorme templo onde, por módica quantia,  um deus qualquer poderá ser louvado e, quem sabe, propiciar milagrosa riqueza e opulência ao crente. Louvado seja!
     Vejo os filmes em "streaming", deitado no sofá defronte a TV. Às vezes uma que outra lágrima. Meu primo oftalmologista diz que é bom para lubrificar "as vista". Imagino que sim, mas  o cine Itamar, o Ipanema e aquele da rua Direita, no Tijuco, cadê?