quinta-feira, 27 de outubro de 2016

DANDO DE COMER AO MONSTRO

"NÃO fale em crise, trabalhe!"  Lembram desse lema? Pois eu lembro muito bem, assim como me recordo que sempre quando o lia, lembrava do supremo cinismo do dístico que encimava o portão do mais terrível campo de concentração nazista, o de Auschwitz, na Polônia, assim como em outros matadouros: "Arbeit macht Frei" ou "O Trabalho Liberta".
      Após o fim da guerra, com a libertação dos sobreviventes, o aprisionamento de muitos dos responsáveis pelos horrendos crimes do regime totalitário, os fascistas de todas as cores e latitudes mudaram o modo de agir: no lugar da velha e ignorante empáfia, da obtusa intolerância, começaram a usar meios muito mais discretos e melífluos para alcançarem seus sinistros objetivos. 
      À propaganda tosca e óbvia do incompetente Goebbels sobreveio a fase de ouro do "advertising marketing" e de sua Meca Mundial, A Madison Avenue em Manhattan, NYC - USA. E essa era a face exposta de um sistema eficientíssimo de doutrinação e influência, onde a Rand Corporation exercia conspícuamente seu papel de liderança na formação de corações&mentes.
      Apesar de as várias crises ocorridas dos anos sessenta do século passado até hoje terem servido para desmistificar concretamente essas práticas, desnudando-as ao grande público, alguns falsos dogmas formulados então ainda permanecem nos dias atuais, infelizmente intocados.
     O primeiro deles é sem dúvida o da doutrina "desenvolvimentista", ainda o principal artigo de fé de todos os sistemas econômicos e de governo, não importando a ideologia deles; o segundo - uma consequência do primeiro - é o que eu denomino de "a síndrome da cabeça de avestruz". A essa ave é atribuído, desde a antiga Roma, o costume de, quando ameaçado, esconder a cabeça na areia (o que certamente provocaria acerbos desmentidos, caso eles soubessem disso e pudessem se manifestar).
      Mas é (mais uma vez) o homem, esse estranho bicho que tem mania de atribuir a outros animais manias e práticas próprias da burrice inerente à especie. Assim, pedindo desculpas aos "Struthio Camelus" pela injusta comparação, digo que nós humanos, é que na realidade assim agimos. Preguiça, nossa principal "qualidade". Daí a grande maioria, quase totalidade aceitar como inelutável a crise em que mergulhamos  cada dia mais profundamente. 
      Todos reconhecemos, no fundo, que vivemos um período crucial para a sobrevivência da espécie, a cada dia mais evidente e fatal. E quase todos reconhecemos que "não há o que fazer". Mas acontece que há, sim: precisamos antes de mais nada reconhecer que o sistema capitalista tornou-se incontrolavelmente destrutivo. Não há como conciliá-lo à manutenção da vida humana no planeta. Esta exige conscientização, cooperação e coletivização. 
      Os meios de produção devem, sim, ser propriedade coletiva. A partir do mar, do ar, do solo e do subsolo, as riquezas primárias. os bens a serem produzidos devem ser utilitários, não objeto de consumo ostentatório. Todas as ações humanas devem se basear em cooperação entre os indivíduos e os povos, assim como o respeito e a preservação das diversas espécies animais, vegetais e minerais precisa imediatamente se transformar na lei maior do homem. 
      É a forma como vejo a nossa salvação: a única possibilidade. O desastre final não é hipótese futura, é o progressivo avanço caótico do presente.  

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

A LUTA DIÁRIA

APENAS começamos a arranhar o verniz do intrincadíssimo sistema da Natureza Terrestre. Ainda será necessária mais de uma geração dedicada a intensivos estudos sobre o tema, para que os diversos biomas e a interação entre eles seja minimamente compreendida.
      O que já sabemos, entretanto, e a prática comum da exploração dessas riquezas em nosso benefício cada vez mais se distanciam, em nome de um suposto "progresso" de uma ultrapassada noção de "desenvolvimentismo" que põe em risco a própria sobrevivência humana.
     É lamentável, para dizer o mínimo, que em todo o amplo leque de pensamento político agindo no Mundo, não se veja traço sequer, de ações efetivas de incentivo à pesquisa e ao desenvolvimento do tema. A falácia da COP-21 realizada em Paris no último ano, demonstra claramente que os líderes dos 195 países que assinaram o acordo - que determina ações efetivas de diminuição de emissões de gases nocivos a partir de 2020(!!) agem conforme lhes é determinado. E quem é que determina esse modo de agir que é o de sempre adiar e adiar as providências necessárias? O "mercado".
     Os papéis estão atribuídos a cada um dos países, não importando a inclinação política, a riqueza ou o grau de desenvolvimento de cada um. Assim que ao nosso, o Brasil, continuamos como sempre fomos: exportadores de insumos, tais como ferro, produtos agrícolas, carne, terras raras, outros minerais, etc. 
     Não há, seja da parte do último governo eleito, seja da parte do atual, alçado ao poder por meios altamente discutíveis se não ilegais, menção alguma ao tema. E ainda pior, a própria população, excluída uma minoria heróica porém estatisticamente desprezível, não se sensibiliza quanto ao tema. Ninguém percebe o que estamos fazendo em nosso território, deixando para os sucessores, terras envenenadas pela monocultura, pela criação intensiva a qualquer custo, pela extração desenfreada de riquezas minerais e outras ações duplamente perniciosas: não há um controle governamental para regularizar essas práticas, e portanto elas somente geram riqueza para pouquíssimos, em detrimento da imensa maioria.
     Apesar de poucos se sensibilizarem, a luta diária das instituições, geralmente privadas, que alertam o país a respeito da importância fundamental de ações regulatórias destinadas a impor limites ao saque, esses organismos não são compreendidos e muito menos acatados, quer pelo governo - qualquer que seja sua cor política - quer pelo povo. Não vejo, nessa peleja, um David enfrentando Golias: antes um desdém de um país como um todo, incapaz de imaginar o dia de amanhã.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

S E X O

VALHO-ME da letra de antiga música do compositor Chico Buarque, "A Flor da Pele" , onde o desejo sexual  é descaradamente descrito e mostrado como realmente é: puro instinto animal, sem meias palavras, sejam de censura moral, religiosa, penal, ou quaisquer outras. Se isso acaba em Freud, é provável. Até hoje o mundo não assimilou bem o que Darwin escreveu, imagine se vão aceitar a teoria de um médico judeu, austríaco, meio esquisito, destoante dos seus colegas acadêmicos, e de teorias assustadoras (porque reais)?
      ISSO tudo foi para declarar apenas o seguinte: não há sentido em dizer que uma pessoa é hetéro (prefiro pronunciar dessa forma), homo, bi, adepto do bestialismo ou de todas as "filias" já catalogadas ou ainda em vias de serem: Em matéria de instinto reprodutor, desejo sexual, libido etc., o verbo a ser utilizado deve ser o "Estar" , jamais o "Ser".  Aposto com vocês como, no momento em que isso for entendido e, principalmente, aceito pelo ser humano, as coisas melhorarão muito, mas muito mesmo. Influindo (para melhor)  nas relações macho/fêmea, nas sociais, nas nacionais e até mesmo no impulso guerreiro do ser humano. 
      Esta atual "civilização" baseia-se claramente na repressão dos instintos "animais" nos humanos. Agora, quando ela está nos últimos suspiros, uma vez exauridos (quase) todos os recursos necessários a sua sobrevivência, ainda acredito ser possível que dos escassos sobreviventes nasça um novo tipo de vida, no qual, antes de tudo, eles se aceitem mutuamente como "estão" a cada instante, sem pensarem no improvável e inconcebível "são".  
    Quem viver, verá.  

terça-feira, 20 de setembro de 2016

estupidez ilimitada



      Desalento. desolação. angústia. É a resultante do que percebo ao ver o Brasil hoje. Como se ainda vivêssemos na Década de 60 ou até antes, quando a moda era o desenvolvimentismo a todo o preço, a exemplo do "New Deal" e da industrialização do bolchevismo. Como se o mundo ainda fosse aquele, com pouquíssimos seres humanos  (1/3 da população atual), total desconhecimento das consequências causadas no bioma por tal doutrina.
      Agora, chegando cada vez mais rápido perto da extinção (qual o "bicho" mais ameaçado de ser extinto? Adivinhem!), não há um só político que preste atenção nesse descalabro. Fenômeno mundial, afetando principalmente países como o nosso, onde convivemos com um Estado "forte" perante o povo, e um(a)  "mocinha(o) dadivosa(o)"  ajoelhado(a) perante os patrões. Daí esses recordes sucessivos de desastres ambientais cada vez maiores e mais espetaculosos. Rasgar a terra com ferrovias, socavá-la com o peso das águas represadas, arrasar Itálias e Noruegas de extensões florestais significa (ainda!) "progresso"
      Como dizia antigo professor em MG, "no inverno vocês verão" É isso. Só.

domingo, 18 de setembro de 2016

O QUE ESTÁ ACONTECENDO COM O BRASIL?


      NOSSA INGENUIDADE política nos traz acorrentados a crises, em sua maioria pré-fabricadas, as quais nos cobram um preço exorbitante pelo imobilismo no qual quedamos. 
      
      NÃO MAIS existem adversários políticos mas sim inimigos, à ponto de quase chegarem a eliminação física uns dos outros - e já chegaram inúmeras vezes.
      
       DITO ISSO, a conclusão possível é que todos, sem exceções, todos  aqueles que podem, puderam ou poderão usar de meios escusos para se locupletarem financeiramente, assim o farão.

      ENTRETANTO isso não é uma característica de determinado país ou de um povo em particular: característica humana,  é prática comum a todas as demais nacionalidades e etnias, tão antiga quanto as demais. "A ocasião faz o ladrão", um ditado antigo e infelizmente verdadeiro.

      O QUE PRECISAMOS é de mecanismos (não de leis, que já as possuímos em demasia!) efetivamente funcionais que previnam, coíbam e impeçam que, como atualmente, sejam essas ofensas penais tão facilitadas, tão corriqueiras. 

      EM NADA ADIANTA, a não ser a outros povos e nações - essa atitude generalizada de acusações mútuas e ofensas que por serem tão comumente utilizadas alcançaram o patamar de coisas triviais e, na prática, inofensivas. Trivial e inofensivamente tão cancerígenas a um povo, a um país como todo.

      JOGAMOS PEDRAS uns nos outros; isso é extremamente gratificante, à medida que nos dá impressão de, com isso, ficarmos isentos da culpa que temos: será? 

      FAÇO MINHAS as palavras daquele sábio homem que admoestava os agricultores que insistiam em cuidar da folhagem das plantas: "atentem, oh néscios! Curem as raízes, a infraestrutura; é assim que se curam  plantas e  povos! Cultivem-nas e as eduquem, o resto acontecerá per si!"  

      PENSEM bem: o Brasil, dessa forma dividido e em vias de radicalização irreversível, a quem aproveita? Cui Prodest ?    


terça-feira, 6 de setembro de 2016

MAIS DO MESMO








 QUE podemos esperar então, da vida (do espelho?) se tudo o que percebemos é a imagem esmaecida, já, do passado? Quando estamos para nascer, já nascemos? Nosso choro primal antecede o da matriz? E a morte, o que é? Quando, afinal morremos? Em que instante deixamos de ser e nos tornamos nada?
      O presente inexiste? O que pensar do futuro? Nos movemos no pretérito; o que veio antes, se nunca há o depois? A impunidade derivada do presente do verbo "ser" se aplica? Alguma vez serei? Deixarei alguma mensagem aos pósteros? 
Existirão, estes?
      Ah, a vida, esta então deve ser um vir-a-ser contínuo e jamais alcançado e, por isso mesmo, nada mais ilusório que aquilo chamado realidade, não é mesmo? Pois movendo-me idealmente na velocidade da luz, nem mesmo um borrão fugaz e controverso poderia perceber, ao contemplar-me em um espelho...

ALICE E O ESPELHO


     ALICE jamais conseguiu adentrar o espelho. Simplesmente porque ele nunca está lá*










* O que se enxerga no espelho é somente uma imagem do passado. Entre a sua mirada e a volta do reflexo (luz) passa-se uma infinitamente ínfima fração de milionésimo de segundo, entretanto significativa o suficiente para que a imagem esteja no passado**





** Por isso podemos concluir que "o presente não existe" pois só podemos perceber o que já passou***





*** "vida es sueño" disse uma vez o poeta(1); estaria ele se referindo a esse paradoxo?




      (1) =  Calderón de La Barca

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O ATRASO AINDA MAIS AMPLIADO




SABEM a causa desses "engarrafamentos" políticos que ora e vez nos assolam, causando um nevoeiro institucional onde todos mentem descaradamente, tonitroando serem os verdadeiros donos da verdade? 

É SIMPLES: apesar de estarmos entre as dez maiores economias do Planeta, não somos capazes de possuir, em todo o território brasileiro, fração sequer do número de bibliotecas existentes até mesmo em países muito menores que o nosso.

E PARA PIORAR, as poucas existentes acabam sendo fechadas indefinidamente! 

É O QUE ocorre na Capital do País, onde a Biblioteca Demonstrativa de Brasília está fechada há pouco menos de DEZ anos, sem previsão de reabertura!!

"VERBAS" dizem compungidos, com a mão cobrindo o sorriso sardônico,  milhares e milhares de regiamente pagos"aspones" dos mais diversos feitios e colorações, ainda a pouco aplaudindo o fraco desempenho nas Olimpiadas do Rio em contraste com o custo fantástico da promoção comercial.
ONDE por sinal foi encontrada (mais) uma roubalheira de milhões e onde também cada medalha foi obtida pelos heróicos atletas a custo de muito suor, enquanto os "donos" do esporte mamavam em gordas tetas de "gorgetas",  "jabaculês" e "propinas" das mais diversas e obscuras fontes.

ENTENDERAM, NÃO?  

É BOM LEMBRAR...



EFEMÉRIDES:
Há 62 anos Getúlio Vargas, Presidente do Brasil, suicidou com um tiro no peito. Naquela ocasião, era um velho político gaúcho, adorado pelo povo, odiado pelas elites: banqueiros, industriais, proprietários de (sic) "empresas jornalísticas", ricos, milionários, etc. 
     HAVIA percorrido toda uma longa estrada política, começando na paróquia rio grandense do Sul, depois na Capital, como Ministro das Finanças do Presidente Washington Luiz, a quem depôs em um Golpe de Estado que, na época,  foi chamado de "Revolução".
     POUCO  tempo depois inspirado nos brutais exemplos vindos da Europa e suas massas entusiasmadas com o fascismo em Espanha, Itália, Portugal e, principalmente, na Alemanha, criou o "Estado Novo" uma tirania despótica e sem sentido que causou ao país inúmeros prejuízos de toda ordem, além da violência então institucionalizada pelo DIP, o DOPS e outras nefandas siglas.
     FINALMENTE deposto em 1945, através de Golpe de Estado perpetrado por militares, concorreu à sucessão, em 50, do Presidente Dutra.
     NESSA nova investidura no cargo de Presidente, Getúlio, que permanecia no coração do povo (que parece adorar demagogos populistas) logrou fazer um governo extremamente oposto a tudo que havia sido feito no período republicano, promovendo e incentivando a criação de uma verdadeira infra-estrutura em áreas onde o país estava entregue à cupidez do capital internacional. 
     criação da Petrobrás, BNDES e inúmeras outras estatais, seriam ossos sadios em um grande esqueleto nacional. Este serviria de arcabouço para a forte musculatura que ali se desenvolveria, transformando  radicalmente o país. De pobre, atrasado, ignorante e doentio, o povo iria em breve tempo conquistar e usufruir dessa fenomenal mudança. 
     A ELITE dominante ou seja, os acima nomeados, tomou-se de ódio por aquilo que consideraram uma "traição" do Presidente. Esse ódio foi se intensificando exponencialmente, até desaguar na crise de julho/agosto de 1954, quando, neste dia 24 daquele ano chegou-se ao desfecho com o tiro no próprio peito  daquele senhor de então 72 anos.
      O RESUMO desta história coincide com o momento atual, semelhante a tantos outros em nossa horripilante história de país bárbaro: Os governantes brasileiros são depostos pelos seus acertos, quando contrários à prepotência e ao desmando dos privilegiados. O povo? ora, o povo assistiu, como sempre nessas tragicomédias, bestificado.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

ORA PÍLULAS!




- DEUS inventou a imprensa; o diabo, os jornalistas.
- BRASÍLIA cada vez mais. Corrupção não é Geografia: é ubíqua patifaria.
- ESCRAVIDÃO é vil. Assim como os que acham que ela foi extinta ex abrupto no Brasil.
 - MANDA quem pode; obedece o néscio; finge obedecer quem se imagina esperto; afronta o tolo.
- HONESTE vivere; neminem laedere; suum cuique tribuere. 
- PENA a ser sentenciada aos corruptos: todos sabem, ninguém tem coragem de dizer. 
- REFORMULAÇÃO: Deus inventou a imprensa e o meio de comunicá-la; o diabo, a indústria da informação. 
- O SÁBIO procura saber; o idiota sabe.
- A FÉ é humana; as religiões matam.
(outro dia tem mais.) 

domingo, 14 de agosto de 2016

D I A D O S P A I S






     OS PAIS  das pessoas da minha geração tinham por norma o decoro. A palavra explica-se por si, sem maior necessidade de definições.
     NAVEGANDO por sítios da internet, verifico que os comentários apostos ao noticiário publicado, têm por autoria verdadeiros celerados, os quais tal vocábulo, "decoro" certamente significa algo feito ou revestido do material obtido com a pele de certos animais, principalmente bovinos.
     SÍTIOS que exibem um resumo noticioso em suas primeiras páginas "adoram" e na minha opinião estimulam essa -  ao fim lucrativa - exposição de desequilíbrio psicológico e de criminoso ímpeto (na boçal e ínscia ilusão de estarem cobertos por anonimato). Por isso esses tais fazem questão de veicular essas injúrias, difamações  e calúnias sob o pretexto malicioso de que a net "é livre" - fingindo desconhecer o caráter delituoso desses "comentários".
     "SÃO APENAS NEGÓCIOS", convencem a si próprios, uma vez que esse tipo de intervenção gera debates e ofensas ominosas, num efeito multiplicador sobre a audiência e a consequente valorização da publicidade da qual vivem esses sítios.
      ESPERO que, uma vez passado esse tristíssimo e vergonhoso episódio político que estamos vivendo, a Polícia intervenha afinal, para escumar definitivamente tal corja. E que afinal, julgados e condenados, a Lei os alcance também para que possam ser tratados em instituições psiquiátricas existentes para tal finalidade.
     Por que lembrei disso na data específica de hoje? Por que o "Dia dos Pais" afinal, é uma comemoração visando o lucro comercial, no fim das contas, quase como as tais veiculações delituosas descritas acima.


domingo, 12 de junho de 2016

D I A D O S N A M O R A D O S

      Santo Antônio: amanhã será seu dia. Em Brasília todos vamos ao local onde fica sua igreja, apanhar o pãozinho bento. Tradição que veio junto com os portugueses há muitos séculos, trazida de uma história na qual o jovem franciscano Antonio, comovido com a pobreza faminta dos homens, deu-lhes a comer os pães que havia no convento. Mais tarde, a aflição do encarregado de servir a refeição dos frades foi enorme, ao notar que nem um só pão havia, na cesta antes abarrotada. Correu então a contar o terrível fenômeno a Antonio, tido já por seus irmãos como santo. Este respondeu-lhe que voltasse e olhasse melhor. O frade padeiro assim o fez e estupefato, deparou-se com cestos e mais cestos abarrotados! Tantos eram os pães que todos ali puderam fartar-se e com a sobra, alimentarem homens e animais das vizinhanças. 

      Hoje, véspera de Santo Antonio, é consagrado na tradição popular católica como "Dia dos Namorados" Acho que foi nesse espírito que, motivado por uma curiosíssima nota publicada em um jornal do DF, que há muitos anos escrevi a crônica abaixo, ora dedicada a todos nós, eternos enamorados e a nossas eternas e queridas musas.

"FAIXA PARA ATRAIR UM NAMORADO SÉRIO
      um dia, ela contou para duas amigas que queria conhecer um 'homem sérios, especial, estabilizado profissional e financeiramente' . Haqvia se cansado de homens vazios, sem inteligência e cultura. As duas amigas levaram o pedido ao pé da letra. Literalmente. Ontem, dia do aniversário de 27 anos, a psicopedagoga Tatiana (sobrenome não revelado), moradora da Asa Norte, estatura mediana, loira, olhos castanhos, recém-separada, um filho de oito meses, foi presenteada pelas amigas com uma faixa inusitada, colocada entre o Tribunal de Justiça e o Ministério Publico. Na faixa, com o número do celular dela, o pedido: 'Procura-se um namorado que trabalhe no TJ ou MPDFT. Sou batalhadora, romântica e bonita."   (in "Correio Braziliense" de Quarta-feira, 21 de julho de 2004 - pág. 26)


      Acordou mais cedo que o costume. Ouvira o bebê chorar? Apurou o ouvido na direção do berço ao lado da sua cama; só distinguiu o ressonar baixo de quem dormia tranquilo e satisfeito. O que havia sido então?
      Fez funcionar a cafeteira elétrica, pegou a xícara que sempre usou, branca e não decorada, a não ser um pequeno "HB" de "happy birthday" gravado em preto fosco na lateral. Aí lembrou-se da data: seu aniversário de 27 anos. 
      Pensativa dirigiu-se ao banheiro. Pegou a escova e ao pentear-se, dois ou três fios mais claros que os habituais castanho-escuros destacaram-se logo: "belo presente!" pensou. "Descobrir cabelos brancos logo hoje!
      Olhou de novo o berço, onde Tiago continuava seu sono, indiferente ao mundo e seus percalços. Queria descer até a portaria do bloco para pegar o jornal, mas ficou com medo de o telefone soar justamente na sua ausência e assustá-lo. Se tirasse o som da campainha iria assustar era quem quer que ligasse e não fosse atendido, pensou. Em seguida se acusou de sempre colocar dilemas para si própria, mesmo em coisas as mais triviais. Seu ex-marido sempre lhe dissera isso, no meio de outras acusações ainda piores. Dava uma discussão sem fim, mas reconhecia, no íntimo, que nesse ponto ele tinha razão. Eduardo, as constantes crises que pareciam infindáveis... mas o fim quase total e imediato delas, quando finalmente concordaram que não dava mais para a vida em comum. Quase voltaram a namorar, ele tão atencioso... ela tão cuidadosa... Mas havia acabado e pronto. Era isso. Tocar para frente.
      Lembrou-se que o aparelho era desses sem fio, modelo que, segundo a propaganda do vendedor da "Feira do Paraguai" tinha um alcance de duzentos metros: 900 e não sei o quê de potência. Vestiu uma calça comprida, colocou um blusão por cima do paletó do pijama e o telefone no bolso.
      Estava dentro do elevador, já de volta para o 4º andar, quando o aparelho soou baixinho, dentro do bolso da calça. "Alô! Quem?" Não conseguira ouvir direito. Voz parecida com a do Álvaro, seu irmão. Deve ter querido dar-lhe os parabéns, o telefone instável logo interrompeu a ligação. Os tais... megahertz, lembrou-se subitamente do nome que o vendedor dissera: conversa fiada.
      De volta ao apartamento, ficou esperando nova chamada. Ou que Tiago acordasse para que pudesse sair com ele. Nesses primeiros dias de retorno ao trabalho, todos eram muito pacientes com os seus constantes atrasos, que entretanto a aborreciam. De qualquer maneira, gostava de sair cedo com o filho, na direção da creche. Ficava na Quadra 608 da L2 Norte, e justificava a fama de ser a melhor de Brasília. Foi uma revelação perceber que podia contar com um local tão bem estruturado e administrado, onde seu filho ficava tanto tempo e onde cuidavam dele tão bem. Não era muito perto do trabalho, mas seu pai, crítico do difícil percurso Leste-Oeste no trânsito da cidade, sempre descobria atalhos que ajudavam-no a conduzi-la e ao irmão para o colégio. E agora ela agradecia mentalmente a ele, que um dia lhe mostrara como ir daquele lugar, junto do Campus da UNB, até o Eixo Monumental, onde ficavam o conjunto dos prédios da administração do Distrito Federal.
      Quando o telefone tocou novamente, ficou surpresa ao escutar a voz de Marisa, e não a do irmão. Ao mesmo tempo. alegrou-se com as brincadeiras da amiga predileta. Mas não entendeu o que ela dizia: faixa? Que faixa? Ah, era uma surpresa dela e de Lúcia, outra grande amiga que viajara naqueles dias. Então, quando fosse para a Procuradoria do DF, desse uma volta na Praça do Buriti no lugar de entrar à direita e seguir para o trabalho. À esquerda no Memorial JK, à esquerda novamente no Eixão e olhasse para o estacionamento do Tribunal de Justiça do DF e Territórios. Combinado! Marisa sempre fora uma querida e confiável amiga, desde muito novas.
      Mas seus sentimentos em relação a aquela sofreram brusca alteração quando, seguindo as instruções, deu de cara com a "surpresa": o quê! Colocar uma faixa escandalosa daquelas bem na frente da avenida, entre o Tribunal e o prédio da Promotoria, com seu nº de celular e sua descrição física, oferecendo-se como... sei lá, uma carente idiota e disponível! Sentia-se nua dentro do carro enquanto cumpria o resto do trajeto para o trabalho. Todos os demais motoristas pareciam olhá-la maliciosamente, mal contendo um sorriso debochado nas faces. Dos ônibus a apontavam e riam alto, um completo horror: Marisa me paga!
      Chegou fula da vida na Procuradoria. Só não contava com o bolo "brownie" com a velinha, os colegas cantando à sua volta, o guaraná com gelo (ela adorava guaraná "diet") Marisa percebendo seu amuo mas a distraindo incessantemente com piadas e brincadeiras nas quais logo emendou uma explicação para a festa logo no início do expediente. Havia exposto sua tese ao Dr. Corrêa com tanta habilidade que este concordara: festa à tarde fazia com que quase todos comemorassem rapidamente e aproveitassem para sair mais cedo...
      - Mas a faixa, Marisa! O que vão pensar? Parece coisa de mulher de programa! Só faltou escrever que faço massagem erótica ou algo assim!
      Aos poucos foi finalmente percebendo o humor da amiga e concordando que era até divertido. Podiam contar quantos telefonemas ela receberia, quais os trotes, quais os doentios, quais os verdadeiros... e logo as chamadas vieram, a maioria, a sério para sua surpresa. Davam nome, profissão estado civil, conversavam, jogavam um verde aqui e ali...
      Até que uma voz bem modulada, algo grave, quente, parecendo sincera, logrou atrair sua atenção. Augusto Mário de Azevedo Reis, identificou-se com o nome completo e declarou que era Promotor de Justiça. Envolvente e educado, sabendo manter uma polida distância de quem ainda não conhecia pessoalmente. Uma pequena chama, um prenúncio de algo, quem sabe?  E finalmente, um convite para o fim de semana, um teatro... pediu ao Dr. Augusto Mário que ligasse novamente na sexta-feira à tarde. Quem sabe?
      Ninguém sabe. Essas coisas que acontecem sem que ninguém as perceba direito, simplesmente acontecem: de volta à creche para apanhar Tiago e viu André, pai de Júlia. Sorriram um para o outro enquanto esperavam as crianças, como vai, pois é, seu bebê é lindo, sua filhinha também. No outro dia, quase levou Tiago mesmo dormindo para lá. Não sossegou enquanto não viu Júlia e o pai. Deixaram as crianças, conversaram um pouco, ah, coincidência, vamos para perto um do outro! Pararam no caminho para um café, André contou-lhe da recente e inesperada viuvez, solidarizava-se com a dor do rapaz enquanto o coração acelerava novamente para aquele antigo e gostoso ritmo conhecido. Liga pro meu celular, claro! pegue o meu também, a gente combina alguma coisa, tá certo, ótimo! Daí a oito meses casavam-se. Ah, o Dr. Augusto Mário de Azevedo Reis?  Atualmente faz doutorado em Salamanca, no País Basco.
         


 

sábado, 11 de junho de 2016

PORQUE HOJE É SABADO


      O TÍTULO homenageia a querida e sempre lembrada Cecília Meireles, poeta das maiores. Certa vez ela reuniu em livro algumas deliciosas crônicas e editou sob o nome que usei titulando esta postagem. É edição bem antiga. Quem ficou interessado talvez ache em  sebos.  Vale a pena.
      Aliás o título, para mim, tem outros significados: quando levantei pensava escrever aqui algo sobre a política e os seus agentes. Fui salvo exatamente por que lembrei mais uma vez e disse para mim mesmo: tá louco? Hoje é sábado! Então meu cérebro, sempre prestativo, emendou para mim a data,  com as meninas do quarteto em Cy, mais Vinicius interpretanto o poema deste último.
      Mas então o quê? sobre o quê escrever? Bem, sábado é um dia em que os zoológicos se entopem de crianças e adultos abestalhados, olhando para os bichos - que cometeram o "crime" de serem bichos e por isso foram enjaulados - e ingerindo milhares e milhares de calorias em formato pipoca, refrigerante, cachorro quente, fritas  e uma ou outra guloseima açucarada como determina a tal civilização.
      Mas tirando os maus e costumeiros hábitos e essa história tão triste de zôos e bichos trancafiados, lembrou-me de falar de animais mais sortudos: os que temos em nossas casas, apelidados "de estimação": todo mundo tem. Até o mais pobre, o mendigo, o sem-teto, o bêbado, o equilibrista, o maquinista, o foguista, o ciclista, etc, todo mundo tem um. Além dos que habitam nossos sombrios e desconhecidos desvãos mentais, somos quase sempre adotados por algum ou alguns animal(ais) que desapercebidos no início, transformam-se em parte indissolúvel do nosso cotidiano.
      Nossos inseparáveis amigos podem ser cachorros, gatos, porquinhos da índia, leitões verdadeiros, cobras, lagartos, micos, a lista é infindável. Havia um casal onde a mulher se apaixonou por um boizinho e levou-o para casa. Que era um minúsculo quarto/sala na Prado Junior (no começo de Copacabana, Rio). O marido, boa praça, segurou as pontas enquanto pode, até que um dia não aguentou mais: eu ou ele! Foi visto pela última vez andando sujo, descalço, cabeludo e barbudo perto de um supermercado na Constante Ramos com Barata Ribeiro. Ele e um vira-latas amarrado num barbantinho de nada, amabilíssimo bichinho que abanava o rabo para todo mundo, sem discriminação de gênero, cor, idade, etc. O boi, esse, estava enorme de gordo e rosado, chifres polidos, cascos engraxados, andava com uma coleira onde corações entrelaçados juntavam os nomes de Irene&Caracu.
      Meu espaço chega ao fim e quase deixo de falar dos dois animais que me adotaram, há cinco ou seis anos: Cler e Nanda. Semanas de nascidas,  resgatadas do lixão, ensacadas em um saco plástico bem vedado para asfixiá-las: chegaram com verminoses, diarréia, anêmicas e traumatizadas. Depois de tantos anos, continuam a lição diária de me ensinarem e, pouco a pouco, vou aprendendo. O quê? Amor, ora; amor...

                                                                  foto de 2012

segunda-feira, 6 de junho de 2016

DIÁLOGO DOS APOSENTADOS






     - Vão reformar a Previdência Social, tá sabendo? 
    -  É, ouvi falar.
    -  Ué, que foi isso no dente da frente?
    -  Acabou caindo, sabe? tô esperando receber a aposentadoria para ir no dentista botar de volta.
    -  Mas botar de volta como? 
    -  É um implante...
    -  Por que você não parte logo pra dentadura?
    -  E o dinheiro?
    -  Eles vendem à prestação... cheque pré, 18 vezes....
    -  Bem que era melhor, mas deve ter consulta do CPF e eu tô ferrado no Serasa...
    -  Tá ruim, não tá?
   -   Ruim? Isso foi quando podia piorar ainda mais. Agora ficou foi péssimo! Não estou aguentando!
   -   É mesmo, sô! Eu também! Tô indo comer na casa do filho casado combinei de eles guardarem o prato pra mim, porque        chego bem depois da hora do almoço, todo o dia.
    -  Por que?
   -   Porque comendo tarde, não preciso jantar. Antes de deitar - agora bem mais cedo porque o sono ajuda a esquecer a fome - bebo dois copos de água e como duas bolachas salgadas... bem,  do mês passado pra cá, só uma, porque duas o pacote acaba logo e comprar outro é caro: toda semana eles aumentam o preço!
    -  E de manhã?
    -  O moço da padaria guarda um pãozinho pra mim e me oferece um cafezinho 3 dias na semana, quando eu ajudo a lavar a louça.
    -  Parece que o imposto de renda vai subir: vão retirar aquela parcela de desconto dos idosos, sabia?
     - É mesmo? Ouvi essa história mas achei que fosse boato.
   - Nada! é uma coisa que o Presidente-Exercício disse, a tal parcela de sacrifício...
    - Sei. Fazer o quê? 
    -  Pois é. O quê?
     

PREZADO SR. CHICO BUARQUE


      UM dia vosmicê cantou:
                     "Ai esta terra ainda vai cumprir seu ideal
                      ainda vai tornar-se um imenso Portugal"
     
      Depois de tantos anos curtindo sua música, paro e penso: "ué! Quem dera, Chico, quem dera!!

E TUDO RECOMEÇA NA SEGUNDA-FEIRA - I I




      NÃO. Não dá câncer não. Vômitos e violentíssimas erupções alérgicas, diarréias ininterruptas e abundantes desitratando o nativo e o levando, no fim de pouco tempo, a óbito. Cura não há. Sinto muito, nem tratamento.

E TUDO RECOMEÇA NA SEGUNDA-FEIRA











      BRASIL É EXTREMAMENTE DANOSO À SAÚDE E AO BEM-ESTAR HUMANOS.

domingo, 5 de junho de 2016

PARQUES DAS CIDADES



      CAMPO DE SANTANA, Praça da República, Central Park, Bois de Boulogne, Vincennes, Parque Gorki, Parque de Brasília, Parque da Cidade (Belo Horizonte) e milhares de parques, talvez milhões, em cada lugar do Planeta Terra. Muitíssimos com pomposos nomes, homenageando essa e aquela figura, na maior parte algum político que ninguém mais sabe quem foi. E que por isso mesmo nunca é usado pela população. Nós, o povo, sabiamente simplificamos essas coisas tolas, chamando de  parque da cidade, parque do cedrinho, da cachoeira e tantos outros afetivos apelidos.
      O primeiro da minha lista é o que primeiro guardei na memória: a lembrança infantil retrata um lugar de grandes árvores e curiosos bichinhos na vegetação rasteira. Cotias, alguém me explicou e nunca mais esqueci. Entre as aléias sombreadas, revestidas de areia fininha ficavam canteiros onde além das árvores, existiam algumas construções de pedra cuidadosamente lavrada. Enormes tijolos do material, algumas paredes com janelas de molduras de madeira escura e vidro. Cobertura de telhas de barro em todos. Talvez fosse do maior deles que viesse uma algazarra infantil. Identifiquei o som, fui andando em sua direção e fiquei deslumbrado: era uma escola, jardim de infância o adulto que me acompanhava explicou. Eu quero estudar nessa escola, pedi. Foi uma das primeiras decepções que experimentei: era longe, era difícil chegar, era impossível me levarem diariamente para ali.
     Depois, ao longo da vida, fui conhecendo muitos e muitos outros, nas diversas cidades em que morei. Nessas, a mais agradável e surpreendente foi sem dúvida Curitiba. No Centro da cidade, várias e muito agradáveis grandes praças, como General Osório,  do Passeio Público e seu interessante zoológico,  Praça Santos Andrade com seu belo prédio da Faculdade de Direito da UFP,   Generoso Marques,  Tiradentes, tantas outras. Nos bairros, entretanto, ficam as jóias da coroa: os diversos parques, grandes áreas destinadas ao lazer e ao convívio popular, provando que no Brasil existe, sim, provas sobre o que o planejamento urbano correto pode fazer. Barigüi, Barreirinha, Pedreira Paulo Leminski, Tingui, o belíssimo e novo (ao menos para mim) Parque Tanguá, e muitos outros. Curitiba já era quando lá morei há muito tempo e continua sendo a melhor cidade brasileira de grande porte. E um detalhe importantíssimo, ao menos para mim: não percebi cercas, grades, empecilhos de qualquer espécie que dificultasse o acesso, em nenhum deles.  Dedicação à causa popular e liberdade, receita infalível de exercício da cidadania.

sábado, 4 de junho de 2016

ISSO LÁ É COISA PARA SE LER EM UM SÁBADO?

      Antes de dormir, peguei ao acaso um livro para chamar o sono. O autor, antigo jornalista, o Sr. Hildon Rocha é referido com muito respeito pelo seu trabalho por políticos brasileiros da mais alta estirpe. O livro chama-se "Memória Indiscreta". Uma coletânea de artigos e ensaios dos tempos em que Hildon, ainda jovem, acompanhava a Câmara dos Deputados em funcionamento no antigo Distrito Federal,  Palácio Tiradentes. 
      A medida que ia lendo, meu espanto também aumentava, até o estarrecimento: a narrativa era sobre o processo (acontecido em 1947/48) destinado a colocar na ilegalidade o antigo Partido Comunista Brasileiro, o PCB e consequentemente cassar o mandato popular dos seus representantes eleitos. As manobras, os discursos parlamentares, as tergiversações, as traições, resumindo: toda a sórdida receita que o parlamento usou na ocasião, lá estava. Poucos parlamentares que honravam o voto recebido, versus  imensa maioria de oportunistas maiores e menores, resvalando na marginalidade abjeta de interesses escusos. Igual ao que agora há pouco testemunhamos.  Os atores do drama, inclusive, usavam as mesmas palavras que foram cuspidas pelos parlamentares atuais, quando da sessão destinada a aprovar o pedido de impedimento da Presidenta Dilma Roussef.
      De repente comecei a ver, no relato do jornalista retratos de corpo inteiro dos atuais deputados e deputadas: o fascista espumante, a madame interiorana que "homenageava" o marido preso na manhã seguinte, os patriotas de momento   (que corroboravam o conhecido ditado "o patriotismo é o último refúgio dos canalhas"), mal embrulhados no Pavilhão Nacional - não seria o caso de haver lei que coibisse o uso desse Símbolo da Pátria como fantasia de filibusteiros? - os "filhinhos de papai", herdeiros de mandatos por uma espécie de "direito divino" dos coronéis, na verdade jovens facinorosos descendentes de oligarquias mafiosas que até o presente momento infestam a política provinciana, todo o elenco das mazelas acumuladas desde que optamos pelo sistema republicano de governo autoritário e injusto. 
      Larguei de lado o livro e tentei dormir. Desanimado, desiludido e bastante irritado, custei a pegar no sono reconhecendo, ainda mais uma vez, que em nações como a brasileira, onde não existe ainda vivo e atuante o cidadão, inexiste da mesma forma a História, mas uma farsa ominosa repetida e repetida infinitamente.

terça-feira, 12 de abril de 2016

A MAIOR INVENÇÃO DO HOMEM

 












   O EQUIVOCADO Monteiro Lobato, no seu utilitarismo aflito com as mazelas do Brasil,  escreveu  que eram na verdade três: a alavanca, o plano inclinado e a roda. Millôr Fernandes, nos tempos em que ia à praia, declarou que era o jogo de frescobol; já eu sempre achei que é o caleidoscópio. Seres que conseguiram inventar essa extraordinária inutilidade merecem um voto de confiança, sem dúvida. O jogo de "pega varetas" chega perto, mas acaba derrotado até mesmo pelo frescobol millordiano pelo aspecto competitivo que encerra. O campeoníssimo caleidoscópio, além de não ter sentido prático algum, sequer necessita de um parceiro. É você consigo mesmo e os pequenos fragmentos de vidro formando imagens aleatoriamente. Rigorosamente individual, basta-se a si próprio. Desnecessária a angústia da interpretação freudiana, a transcendência, a fé. É a perfeição contida em si mesma, a verdade sem atavios. 









segunda-feira, 11 de abril de 2016

"ISSO AÍ NÃO PASSA DE UMA GRANDE CAGADA!" (C. DeGaule)


 
     (Para Marcelo, Pedro Carlos e Antônio Gerson)

  FICOU FAMOSA a exclamação de Mestre Graciliano Ramos, já escritor consagrado mas que, depois de gramar cadeia por ser um "perigoso agente de Moscou",  ganhava modestamente o pão como humilde revisor no extinto "Correio da Manhã". O "bordão" daqueles tempos, entre os repórteres, era a expressão "via de regra". Era "via de regra" para cá, "via de regra" para lá, até ninguém aguentar mais. Principalmente um severo e exigente autor, como era o caso. Claro, o desabafo não podia ser outro, e o foi: em altos brados Graciliano disse "via de regra é bu...!" referindo-se ao termo chulo - ao menos no Brasil (em Portugal o grande Bocage o usava sem temor  em seus poemas) que designava o órgão sexual feminino.
     Ocorre que jornalista naquela época, era profissão donde a grande maioria provinha dos extratos mais pobres da população urbana. Quase todos não tiveram outro ensino que as primeiras letras, obrigados a mourejar permanentemente debaixo do aguilhão da fome. Essa tensão diária fazia com que compensassem a falta de formação profissional (e nem era reconhecida legalmente a atividade!) com uma esperteza "darwiniana", no sentido que só os mais aptos sobreviviam.
     Entre as diversas expressões consagradas pelo uso - mas ao mesmo tempo ultra maliciosas - está a minha preferida: "comoção intestina": lembro-me que logo após o golpe de 64 foi apropriada  pelos militares em seus mais sérios, ameaçadores e agressivos pronunciamentos. Tenho certeza que, à socapa, os jornalistas mais tarimbados deviam morrer de rir com aqueles coronéis e generais todos que jamais se aperceberam do real sentido do termo... E como naqueles infelizes tempos a repressão era ainda pior que na ditadura getulista, os escritores e outros homens de letras estavam em sua grande maioria na cadeia, sem poder gritar aos quatro ventos o significado verdadeiro da expressão: "COMOÇÃO INTESTINA É CAGANEIRA!!" E até hoje, nesses perfunctórios e melancólicos tempos em que perdemos a capacidade de autocrítica e a malícia natural do ser humano em favor de uma paupérrima obviedade, de uma insôssa e medíocre  literalidade, a expressão é consagrada nos mais conspícuos dicionários...

sábado, 9 de abril de 2016

DIVAGAÇÕES DE SÁBADO

     Lá se vão trinta anos ou mais que o falecido jornalista P. Francis havia alertado seus leitores para a posição de "fichinha" (gíria da época) do nosso país no que se refere a deslavada corrupção do mundo político. Era um "fenômeno" Não só dos EUA, Japão, China, mas de ocorrência planetária.
     Agora esses pilantras  batedores de carteira, descuidistas de todas as origens e cores, conspicuamente nos "brindam" com essa bandalheira do impedimento da Presidenta Dilma. Enquanto isso morrem à míngua centenas de brasileiros atingidos pela lama samarcuda. Nem sequer as doações feitas espontaneamente puderam ser recebidas! As autoridades municipais, estaduais e federais, idem os políticos das mesmas sórdidas origens, "tiram ouro do nariz" (Grande Carlos Drummond!)

quarta-feira, 6 de abril de 2016

E CONTINUA A LESMA LERDA...



   ACHO que já falei sobre isso: Napoleão, da primeira vez capturado, ficou preso na Ilha de Elba. Fugiu e tomou o rumo de Paris. Na medida em que ia se aproximando da capital, seus antigos soldados iam se incorporando ao périplo; na mesma medida, a imprensa francesa mudava as manchetes diárias, indo de "monstro", "tirano", "assassino", até "imperador", "libertador", "salvador", "excelso" e por aí a fora.
     SEMPRE recordo dessa historinha vendo as manchetes do noticiário, tanto na internet quanto nos jornalões. Podiam ao menos preocuparem-se com a originalidade...

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

O CINE IPANEMA, O ITAMAR E O DA RUA DIREITA, NO TIJUCO

   


     O ÚLTIMO cinema do mundo acaba de fechar as portas. No Brasil,  eles não existem mais. Ruínas que acompanham outras, de tempos que nunca mais. Aventuras que resvalaram para algum vão obscuro, atrás dos velhos móveis guardados no sótão.
     Na casa de meus avós, na rua de S. Francisco, havia um porão. Depois que os escravos foram embora, vovô mandou derrubar os adobes que separavam os cubículos, varrer bem varrido e cobrir todo o piso com seixo rolado. Com o tempo a poeira acamou, virou terra e soldou as pedras. ficou bom. 
     A última vez que fui lá encontrei dezenas e dezenas de canastrinhas de couro, daquelas que se usavam antigamente para carregar roupas e demais pertences no lombo das animálias. Achei também centenas de cartas de primos, tios, e parentes arcaicos, dos tempos de Nosso Senhor D. Pedro. Os selos eu tirei cuidadosamente dos envelopes, lembro de uns "olho de boi", vários "olho de cabra" e outros menos afamados. Sumiram depois, dos meus guardados, e nunca mais pus os olhos neles.
     Fiquei sabendo no fim do ano passado que demoliram a casa, junto com outras quatro ou cinco em ambos os lados. no quadrilátero será construído um enorme templo onde, por módica quantia,  um deus qualquer poderá ser louvado e, quem sabe, propiciar milagrosa riqueza e opulência ao crente. Louvado seja!
     Vejo os filmes em "streaming", deitado no sofá defronte a TV. Às vezes uma que outra lágrima. Meu primo oftalmologista diz que é bom para lubrificar "as vista". Imagino que sim, mas  o cine Itamar, o Ipanema e aquele da rua Direita, no Tijuco, cadê?