quinta-feira, 21 de outubro de 2010

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                                                            APÓS O CARNAVAL



Começo das aulas, toda aquela atrapalhação. Onze anos, primeiro ginasial. No lugar de uma professora, agora eram muitos. Cumpria saber o nome de cada um, principalmente guardar-lhes as idiossincrasias, modos, manias, o que fazer, quando falar, responder a chamada a cada uma das aulas. estava muito inseguro com tanta novidade.


No primeiro intervalo – era preciso prestar atenção e jamais voltar a dizer recreio – espantou-se com o número de alunos mais velhos e a algazarra que produziam. Logo percebeu que ele e os demais colegas do primeiro ano eram invisíveis. Sequer as garotas da turma, algumas já botando corpo, eram olhadas.


O pai fora com ele no início. No primeiro dia chegou a entrar na escola e ir até o grande pátio interno. Depois só o acompanhava na viagem de ônibus, o percurso durava mais de uma hora. Finda a primeira semana, passou a ir sozinho. Seguia até o ponto próximo a sua casa, esperava o coletivo que ali ainda estava bem vazio, escolhia um lugar na frente para ir cismando até que todos aqueles quilômetros findassem e fosse sua parada. Gostava mais da volta: ia andando por uma estreita rua onde só pedestres circulavam admirava as vitrinas, tentava ler os nomes enquanto desviava da multidão que ia e vinha pela mesma via. Imaginava de onde haviam vindo todas aquelas mercadorias de uma imensa loja, já quase no final: imensos vasos com desenhos impressos na cor azul, caixas com filigranas, xícaras, copos, pratos, talheres e uma infinidade de outros objetos cuja utilidade nem desconfiava. Atraía-o a policromia exuberante que fazia brilhar as três ou quatro portas do grande empório. O nome invocava viagens, lugares misteriosos, gente esquiva: Casa da América e China...


Então a ruazinha se abria em outra muito mais larga, cheia de bondes e ônibus. A cacofonia era um contraste brutal com o relativo sossego de antes. Havia um sinal luminoso que sempre ficava amarelo e logo vermelho assim que avistava o menino,. Ele passou a notar a evidente implicância do semáforo. Parava na beirada da calçada e logo a multidão se formava e ia forçando-o cada vez mais para a frente: dava um ou dois passos no leito da rua, ficava atento principalmente aos bondes que não tinham como desviar. Aquela massa de gente espremida ia pouco a pouco se derramando por toda a parte como um latão de leite derramado, o apinhamento tomava conta do caminho. Então o sinal ficava verde, aquele troço de pessoas ia correndo ao encontro da outra multidão que vinha do lado de lá.


A enorme loja da “Drogaria Granado” ostentava com orgulho sua produção em vitrines impecáveis: sabonetes, talcos, polvilho antisséptico. Lá dentro os balconistas azafamados, um burburinho crescia no ar mas logo arrefecia, já estava chegando no prédio da esquina, ali ficava o Instituto do Açúcar e do Álcool, achava o nome imponente, não sabia porque.


Logo o cheiro de maresia tomava suas narinas, estava na grande praça onde ficava o ponto inicial do ônibus para a sua casa. Do outro lado um enorme edifício, o entreposto de pescado. no mar havia um atracadouro protegido onde balouçavam inúmeros barcos de pesca ostentando nomes como “Jandira”, Estrela Dalva”, “Januário- II”, “Esmirna”. Perto dali partiam as lanchas mas estas só iam até um outro local da ilha, muito distante de casa. No meio da praça um obelisco em forma piramidal, a base entretanto era pequena em relação à altura, um monumento, um dia o pai explicou-lhe, homenagem a alguma coisa remota e esquecida de quase todos.


Depois de um tempo descobriu na lateral do largo uma passagem em forma de arco, com a abóbada em pedra de cantaria. Houve um Teles, aquele havia sido seu arco. sorriram quando ele disse essa tolice com ar sério, intelectual.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

T I R I R I C A
    


     DUAS coisas ressaltadas em nós, brasileiros: o caráter extremamente preconceituoso da sociedade (o que é sinônimo de intolerância e obscurantismo), e mais a notável falta de memória.
     Ainda adolescente em Belo Horizonte, na década de 50, come-
cei a ouvir falar em um certo "Chico Fulô", misto de palhaço de circo e lutador de "catch" que na época atraía multidões para o ginásio esportivo da antiga feira de amostras. Eram lutas encenadas, onde a turma dos "mocinhos" lutava contra a dos "bandidos", tudo debaixo da torcida febril dos milhares que compunham a ululante platéia.
     Um dos que faziam parte da "turma do bem" era o "Chico Fulô", que caiu nas graças da população e angariou enorme popularidade. Não deu muito tempo e lá estava ele, agora com seu nome real de Waldomiro Lobo, candidatando-se a vereador. Reações iradas, verdadeira cruzada em nome "da moral e dos bons costumes". Waldomiro Lobo só não foi chamado de "bonito" (coisa que aliás não era, muito pelo contrário): todos os xingamentos, epítetos, epigramas, etc. etc. publicáveis eram vistos diariamente nos jornais. Ridicularizado de todas as formas e modos possíveis, nosso amigo foi eleito com estrondoso número de votos.
     Não me recordo muito bem do que ocorreu depois, pois logo  mudei de lá e deixei de acompanhar o dia a dia alterosiano. Agora, pesquisando na internet para escrever este post, vi que Waldomiro Lobo teve uma carreira na política, pois chegou a deputado estadual. E continuando a pesquisa descobri também que ele dá nome a uma importante avenida da cidade. Sinal que, de um ou outro modo, sua vida teve significado para Belo Horizonte e seu povo.
     Essa rememoração foi provocada pela celeuma que despertou a candidatura e posterior eleição do Sr. Francisco Everardo Oliveira Lima ao posto de Deputado Federal por São Paulo, com a maior votação de todos os tempos. Senhor talvez apedeuto, que responde pelo "nom de plume" (o trocadilho é intencional) de "Tiririca", e cuja profissão é ser palhaço.
     Repórteres de uma revista semanal investigaram a suspeita de analfabetismo do  então candidato (e agora deputado eleito). Fizeram tal sucesso que a pauta foi estendida pelos números seguintes, enquanto a população se eriçava com a verdadeira novela que os profissionais da imprensa criaram e alimentavam:  "Tiririca" sabe ler e escrever? Não percam o próximo capítulo!
     Enquanto isso, cá do meu canto, eu também ia, dia após dia, ficando mais e mais "eriçado" com a  calhordice de tudo isso:  no fundo no fundo o que mais uma vez ficava demonstrado (como se eu já não tivesse certeza disso...) a estultice do ser humano: querer examinar as condições da árvore pelas folhas! Pois da mesma forma que a chamada Lei da Ficha Limpa é uma pseudo panacéia, não vai ser o fato de o Palhaço Tiririca ler ou escrever que o condicionará a ser um bom ou mau parlamentar. E, é fundamentalmente óbvio que a forma de se aferir a integridade moral dos membros do Congresso Nacional não é criando empecilhos e "pegadinhas" mas sim acompanhando as votações dos projetos,  informando-se a respeito das atividades do "seu" parlamentar. Hoje é bem fácil fazer isso:  há inúmeras organizações e centenas de sites na internet voltados para o assunto. E bem se pode mandar frequentes mensagens eletrônicas com cobranças e repreensões a eles. Tudo isso dá mais trabalho e demanda uma dedicação constante, mas é o dever do eleitor, em uma democracia. Reclamar, criticar, atribuir a outrem a responsabilidade pelo controle e pela vigilância da coisa pública, não faz uma nação amadurecida e digna. Parece coisa de criança embirrada. 
     Espero que o Sr. Francisco Everardo se revele um bom deputado, e que eu viva ainda o suficiente para um dia ler em uma placa de informação na cidade de São Paulo: "Avenida Tiririca".  






                                         
       

CHOVE, CHUVA!

      A CHUVA chegou para valer aqui no Planalto central. Até domingo ainda existia aquele caráter de "chove não molha": caía um que outro pingo, um temporalzinho de curta duração e só. Era só cavar um palmo e o chão mostrava a seca de quatro meses ser ver um pingo de água.
     Pois a partir de ontem, segunda-feira, isso mudou. Começou mais ou menos três da tarde, prolongongou-se noite a dentro e madrugada afora. Hoje pela manhã o solo já estava empapado, as plantas exibiam suas cascas querendo criar bolor, as folhas com milhões de gotículas.
     Acho bom. Já falou o poeta, "quando chove é que faz bom tempo" e é verdade. Um que outro incômodo, mas essa água que vem dos céus é nossa verdadeira mãe, a responsável por vivermos e nos multiplicarmos. A bênção, Senhora Chuva!

domingo, 17 de outubro de 2010

B E L E Z A



                                            
MINHA AMIGA VERA BRANT





                                             


                                                 Domingo é dia de ser feliz. E certamente estou entre aqueles “happy few” ainda mais felizes, porque podem chamar Vera Brant de amiga. E é um regalo do seu generoso coração  partilhar com seu próximo os seus afetos. É de amor mesmo que falo, pois quem não consegue se extasiar perante essas imagens?
                                                 Tenho certeza que, quando de volta à casa ela mais uma vez se encanta com essa verdadeira dádiva da natureza, especialmente neste início de primavera, conforme vocês podem ver. É convívio antigo, mas estou certo que, a cada instante, se renova. Não sei se os dois chegam a conversar, mas aposto que de há muito existe uma cumplicidade, um sorriso maroto de parte à parte, um discreto cumprimento entre os dois, uma fraternidade, um amor especial. E o que não existe é ciúme: mal abri o computador e lá estava a mensagem: “olha só que beleza!” Usufruir partilhando. Eis o verdadeiro caráter do ser humano completo.

sábado, 16 de outubro de 2010

REFRÃES DO VOVÔ PAULO

"Os sábios não dizem o que sabem, os tolos não sabem o que dizem" (Provérbio oriental)
"Quem comprar o que não precisa, venderá o que precisa" (Provérbio árabe)
"O homem comum fala, o sábio escuta, o tolo discute." (Sabedoria Oriental)
"A língua resiste porque é mole; os dentes cedem porque são duros." (Provérbio Chinês)
"Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele" (Provérbio português)
AOS SÁBADOS, POESIA



                                                                                             
                      
VIDA
"A mãe que faz à filha a trança" (Miguel Torga*)

A mãe que faz à filha a trança,
ao pé do grande, antigo espelho oval
traz dolorida na lembrança
a mesma imagem de outrora, no mesmo cristal.

No devaneio, vê-se na pequena
sentada na banqueta; e ao mesmo tempo
repetida nas rugas, que a idade impõe
que em seu rosto se deponham afinal.

Vê-se também, a si própria: já foi ela a filha.
Em tempos bem remotos era a criança
e outra mão tecia, de sua vez, a sua trança.

Agora, olhando a si mesmo refletida
com este mesmo e outro, olhar de sempre
de mirar tão triste, tão igual.

* Miguel Torga, pseudônimo de Adolfo Correia da Rocha, poeta e escritor português (N.1907- F.1995)
O TUPI EM SÃO PAULO

     A Professora Vera Lucia Dias, autora do livro que dá título a esta postagem, mandou-me simpático e-mail agradecendo a referência a ele. O que é bom, útil e bem-feito a gente elogia, cara professora!
     E conforme vocês podem ver abaixo, ela também explicou o que significa "Apacê", nome da rua no Jabaquara onde fica a Editora Plêiade:

Olá Paulo,

Tudo bem?
MUITO OBRIGADA pelo texto e divulgação do livro "O Tupi em São Paulo"!
Abraços,
OS. Apacê significa montículo (pequeno morro), saliente, destacado.
Abraços,
VERA LUCIA DIAS
guia da cidade
vera@passeiopaulistano.com

      Aliás, o nome dessa Editora avivou antigas lembranças do Vovô Paulo: década de sessenta do século passado, Jean Paul Sartre, existencialismo, etc. etc. Era bom ter vinte anos... quem se interessar por essas pesquisas (hoje em dia mais no âmbito da arqueologia!) dêem uma olhada na wikipedia. Jacques Schiffrin, Gide, está tudo lá.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

PARÊMIAS DO VOVÔ PAULO
"Quem ara e fia, ouro cria"
"O hóspede e o carneiro aos três dias tomou cheiro"
"Quem em novo não trabalha quando velho come palha"
"Quem conta com panela alheia arrisca-se a ficar sem ceia"
"Com pão e vinho anda caminho"
               (Da obra "LITERATURA POPULAR DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO", de Joaquim Alves Ferreira, Vol. IV - 1999




EPHEMÉRIDES

     Ih! meu patrão, o Vovô Paulo, foi dormir mais cedo e me pediu que fizesse hoje a notação dos fatos do dia. Logo eu, que faço uma confusão danada com nomes e datas! Mas chefe é chefe, então vamos lá: em 19... não quero dizer, no dia de hoje, em 1864 aquela princesa se casa no Rio de janeiro com o príncipe (é claro que foi com o príncipe, sua tonta! Ia querer que a princesa se casasse com o motorneiro?), aquele francês, como é que ele se chama mesmo? Ah, não era príncipe, mas conde: Conde D'Eu. O nome da princesa era Áurea, não era? foi aquela que assinou depois a Lei Isabel, não? NÃÃOOO?? Ah meu Deus eu disse que fico na maior confusão!
     Então vou parar por aqui senão amanhã estou sem emprego! Só mais essa informação, que eu pesquisei sózinha sem nem o chefe mandar: o nosso calendário, esse que usamos no mundo todo salvo poucas exceções, está fazendo anos! Hum, deixa eu ver... 58e... menos dois mil e... ahá! 428 aninhos! Nem parece, caro Gregoriano, você tem sido tão útil à humanidade que vai ver isso fez com que os anos não o marcassem e... ora, que bobagem a minha! Claro, os anos não vão marcá-lo pois você é o pai deles! E com essa, CHEGA!
Ver imagem em tamanho grande(a) Maria Duína, secretária digitadora.




quinta-feira, 14 de outubro de 2010





ENECOARUCA
      Vera Lucia Dias é uma guia cultural, especializada na cidade de São Paulo. Bacharel em Turismo, com pós-graduação em Globalização e Cultura pela Universidade Paulista - Unip, igualmente é dessas pessoas que bota fé no que faz. Colheu de suas andanças pela capital paulista talvez a mesma curiosidade de muitos, a respeito dos nomes indígenas que nomeiam grande parte do lugares: ruas, praças, bairros, etc. Então foi atrás de aplacar sua sede de conhecimento e com isso acabamos lucrando, todos nós. É que de suas pesquisas veio à lume"O TUPI EM SÃO PAULO" - Editora Plêiade, SP (2008). Obra de poucas páginas mas de grande conteúdo, onde aprendemos o que significa Anhangabaú, Anhembi, Apinajé, Butantã, Iguatemi, Congonhas, Itaquera, Iguatemi, Mooca, Moema, Tamanduateí,  Tucuruvi e tantas outras. Comprei meu exemplar, ciumentamente guardado, não lembro mais onde, mas aconselho uma ida até o site da autora: http://www.passeiopaulistano.com/ onde está à venda. Há também outros informes úteis sobre passeios guiados na "Aldeia do Peixe Seco" (pois segundo aprendi no livro, é o significado de "Piratininga") 
     Vera Lucia ficou devendo em uma próxima edição foi o significado do nome da rua onde fica a Editora Plêiade: "APACÊ". Já o bairro, Jabaquara, li e vou contar: quer dizer "lugar de fugitivos", ou quilombo
PS - Ah, e o título deste post? Quer dizer, "boa tarde"!

terça-feira, 12 de outubro de 2010

APOTEGMA DO DIA:                
                                                                          "TREINA na barba do tolo o barbeiro novo"
A M É R I C A !
Um jovem marrano (judeu convertido à força ao cristianismo) de apenas 23 anos, chamado Rodrigo, originário da cidade de Triana, Espanha, foi quem primeiro avistou a terra americana. Após os Vikings, como fazem questão os americanos do norte. Segundo assinala o Barão do Rio Branco em suas "Ephemérides" era uma noite calma e enluarada, quando o vigia avistou um trecho de areia branca e deu o alarme. Romântico...
              Quem quiser mais "clima", sugiro ler ao som da obra "Iberia", a suíte espanhola de Isaac Albeniz. Justamente a música chamada "Triana". Tem em piano (Rosa  Torres-Pardo, Rafael Orozco e outros e outras) violão (Narciso Yepes, Segovia, Paco de Lucia, e mais).
               Livros? Nada melhor que ler da pena do próprio Colombo o relato de suas vicissitudes e triunfos: "Diários da Descoberta da América" edição da L&PM, traduzido por Milton Persson, introdução de Marcos Faerman e notas do "Peninha" (Eduardo Bueno). Na realidade o nome da obra foi certamente inventado muito depois do autor, uma vez que este jamais soube sequer da existência do florentino Américo Vespúcio. Muito menos da "Comédia de Erros" levada a efeito em Saint Dié, povoado nos montes Vosges, Leste francês. por Yacomilus e outros. A respeito há um saborosíssimo ensaio de ninguém menos que Stefan Zweig chamado "Americo - Uma comédia de Erros na História" - tradução de Cláudio G. Hasslocher (Editora Guanabara, 1943). Pesquisem nos sebos que você acham.
               Outras obras que podem interessar: "O Português Cristóvão Colombo Agente Secreto de D. João II" de Mascarenhas Barreto. Parece mais enredo de filme "b", mas tem gente que gosta... E mais ainda, não podemos deixar de falar a respeito de Eduardo Galeano e sua visão do paraíso destroçado: "Memória do Fogo", a trilogia do sofrimento dos povos autóctones das américas: "Nascimentos", "As Caras e as Máscaras" e "O Século do Vento". Quem for preguiçoso pode ler "As Veias Abertas da América Latina" quase um resumo dos três volumes. Vai perder uma obra maravilhosa mas...
Rodrigo de Triana
foto de Peter van der Krogt/2002
Praça da SS Trindade - Triana, Sevilha - Espanha

domingo, 10 de outubro de 2010

HAIKAIS DO INÚTIL DOMINGO

I
Quem é que sabe
a dimensão do abismo
a solidez do ar?

II

Todos os dias
são vésperas do amanhã:
Chegam, são passado.

III

INFÂNCIA

balão japonês
resplendia na noite:
tão breve fulgor!

(foto de Deny Paula Barros Pereira)