terça-feira, 23 de julho de 2013

OUTRA VEZ!!

 









   Não pensei em tornar a ver o fenômeno, hoje foi na televisão - mas tudo bem: nevou em Curitiba! aliás o Sul do Brasil parece estar totalmente tomado por uma "nevasca" (subtropical, vá lá, mas neve é neve em qualquer lugar): aqui, é verdade, dura menos que nos países do Hemisfério Norte, muito mais próximos do Pólo Norte do que os do Sul, onde as terras e os Continentes ficam mais perto do Equador.       
   Mas achei muito bonito ver a terra branquinha novamente, tal como vi (e contei aqui, ver crônica do dia 15 de maio de 2010). aquela havia sido bem no dia do aniversário de 5 aninhos do meu filho mais velho, hoje um senhor (nos dois sentidos) músico barroco de mais de quarenta. Fazendo sucesso em Europa, França e Bahia, mas principalmente em São Paulo, onde reside. E tal qual outro grande músico brasileiro, o pianista Arthur Moreira Lima, torcedor emérito do ínsígne Fluminense, o maior time de futebol do Mundo! Existe com certeza uma forte relação entre o ritmo enleante da música e a harmonia com a bola que cada vez mais demonstram nosso craques tricolores.
      Outra coisa boa foi ver o "Jornal Hoje" horário das 13h15m noticiar direitinho o acontecimento, principalmente os locutores, que por diversas vezes mencionaram o lapso de tempo ocorrido entre aquela "nossa" nevada e a de hoje: 38 anos! Já o "Globonews" tsk tsk tsk... isso é que dá não capricharem na edição! Divulgar que há 50 anos não nevava em Guarapuava, quando a neve caiu - e como agora - no mesmo dia nas duas cidades! Mas que "bola fora" pessoal!
     Outra coisa que ocorreu na madrugada seguinte foi que a "geada negra" acabou com os restos do café paranaense, que vinha sendo trocado lentamente pela soja. O fenômeno climático é que a seiva dos vegetais congela dentro dos caules e quando esquenta novamente, o degelo simplesmente estoura os vasos condutores e a planta morre quase imediatamente. com isso o Estado rapidamente erradicou os cafezais que ainda restavam e financiou os agricultores, que se voltaram para a soja e a cana de açúcar. Com isso o Paraná, que vinha "acelerando na grande curva do progresso" virou o Estado-Potência que é hoje, mais rico que muitos países do planeta. Se Fosse jovem novamente acabava voltando para lá: pinhão com mate, Vivaldi com "as Quatro Estações",
 huummmm... 

domingo, 14 de julho de 2013

PROIBIDO BUZINAR


 


 
                                      

                                                 Paulo da Matha-Machado Jr.

 

 

 

 

 

  

 

U T I

 


          Fui acordado por uma voz  de mulher. Era um som bem desagradável e atemorizador. Apesar do tom baixo, quase inaudível, dava para perceber a  ameaça contida no jeito de cuspir as palavras.  A enfermeira raspou-se.

Ninguém nunca soube explicar esse medo, mas é atávico: qualquer um, desde a primitiva horda, sabe do que eu estou falando. Tanto sabemos que a lembrança acudiu-me com toda a nitidez, embora tão arcaica. Quase uma epifania. E causou-me extremo desconforto, que somado aos da minha atual condição, todo enredado de fios e preso  naquele leito de hospital, ficou ainda maior. Para disfarçar tentei assobiar, enquanto procurava a tal mulher. Mas não conseguia soprar direito, com aquele tubo naso não-sei-o-quê,  logo acima do lábio superior. De qualquer forma, o esforço deve ter alterado algum  mostrador   no posto da enfermagem, pois sem tirte nem guarte lá veio uma delas. Sobrolho franzido, nem precisou falar, essa uma.

          A última coisa que me lembro foi aquele mal-estar enorme. E agora, neste depois, o olhar. O olhar consolador e perfeitamente insultuoso do estranho na cama ao lado. Companheiro de cela na prisão, a soturna UTI de um  soturno hospital, onde eu aguardava ansioso que minha neta e seu poderoso amante viessem me resgatar. Enquanto isso não acontecia, mostrei claramente ao vizinho de cela o quão desagradável era aquele seu olharzinho desconsolado/consolador. Ao mesmo tempo tentava espantar aqueles pássaros. Voejavam agressivos à volta do leito. Eram dezenas, cores vibrantes, penachos, lindos. Os bicos aduncos e ávidos no entanto, mostravam a maldade. Se eu parasse de bracejar seria bicado, cada um levaria um naco de carne, da minha carne, do meu corpo. Um horror. Levei outra reprimenda da atendente, não se agite tanto, algum reloginho de lá havia me entregado. eu estava muito inquieto no sono, não era bom: devia ficar  mais tranqüilo, relaxado. Nem me ocorreu de perguntar qual a maneira de conseguir isso, o controle do próprio sono.   

          No mesmo instante dessa lôbrega aparição, os pássaros escapuliram-se não sei para onde, assim como sequer imagino de qual lugar saiu essa história de neta com amante, nem filhos tenho. Ansiedade provavelmente. Ou alguma espécie de  idiossincrasia, tendo em vista minha condição de enfermo. Delírios disse papai. Delírios. Sobrolho.

          E a mulher que me acordou com seu discurso raivoso? Acho que foi da outra vez, ainda lá na Ilha. Aquela confusão quando eu fui atropelado e o motorista bêbado ainda ficou me xingando. Havia uma vizinha, conhecida de vista. Ela sabia quem eu era, conhecia meus pais. "Madame" como a chamávamos, ficou uma fúria com o sujeito, passou-lhe uma carraspana naquele seu sotaque francês, os rr guturais as sílabas misturadas de cambulhada, o bêbado raspou-se.

          Não tenho a mínima idéia de como "Madame" veio parar no Século 21, ainda jovem - na época eu a achava velhíssima, quarenta anos? - em um hospital desta cidade. De qualquer maneira aguardo ansioso a sua volta. Espero que ela me defenda de um próximo ataque dos pássaros ou da enfermeira de bico adunco. Não seria de todo mau providenciar também uma proteção que isolasse minha cama do leito vizinho e seu ocupante hipócrita deslavado.

          Aí, o vulto em pé ao lado da cama continuou me olhando. Cada vez mais compassivo, cada vez mais parecido com alguém que eu sempre me amaldiçoei por nunca ter tido a coragem amar. Sem nunca querer ter sabido muito mais do que o corriqueiro. O superficial. A medida que fui crescendo, a esquivança também ficou maior,  constrangido e cerimonioso distanciamento até que. Morreu? Enterre-se! Não foi falta de compaixão, meu pai, foi angústia.

 

 
 

 


C O M A


 

          Ossos do ofício. Paciência. Comedimento. Moderação. Tão modesto nos paços de Luculo/ como no tonel do grego/ nem o transtorna a aragem da ventura/ nem a desgraça o abate. Aguardar com serenidade, já já viriam desfazer aquele terrível engano. Nunca tive problema cardíaco, doutor, não precisa mexer aí não, nem colocar essa molinha. É; não doeu, bem que o senhor falou. Vai ficar para sempre ou o organismo absorve? Ateroma, é? E esse tal “stent” aí, dura mais quanto?

 Canto? Memória? Consciência? Metáforas? Lembrei-me do carteiro, querendo ser poeta e casar com a Linda da Aldeia. O livro, como sempre, era bem melhor, mesmo com toda a publicidade sobre o filme.  Diamantina foi uma miserável feitoria do rei português e três ou quatro sevandijas. Um explorava as águas à procura do brilhante, o outro contava, media e pesava os achamentos, um terceiro ficalizava os dois, que por sua vez espionavam este e todos se odiavam. O resto do povo roía couro com raiz de capim. Um dia acabou e quem pode foi embora, quem ficou achou foi bom, o capim tinha  ao menos gosto de liberdade, já não sabia a amargo. O livro. Eu li o livro. Tinha mar em Diamantina? Minha mãe sempre achou que sim, mas ficava escondido e por isso a gente não via. Prestando bem atenção, dava para ouvir as ondas. Eu me lembro que para chegar na praia o carteiro precisava guardar a bicicleta e dar uma imensa volta. O poeta talvez voasse, pois lá o aguardava, gordo como um leão do mar. Descalço, com as pernas da calça enroladas em duas ou três dobras, todo pimpão refestelado na areia. Olhando as ondas. Eva viu a uva. Ivo... Meu Deus! Quanta falta de assunto! Só um instantinho, eu preciso acabar de pensar isso aqui sobre o que estou sonhando, depois a gente vê isso de laboratório, se não a gente pode voltar logo a dormir logo depois mas não adianta mais: o sonho já sonhado foi embora e nunca mais. Tirar sangue. Ai! Essa agulha tão fundamente no pulso, à procura de uma artéria, isso dói! Sem contar que da última vez fiquei mais de mês com o punho roxinho roxinho, ia antebraço acima até quase o cotovelo. Aquela mancha azulada, sei lá, muito esquisito. A soma dos óxidos é igual ao quadrado da distância do Oiapoque ao Chuí, do lado de lá muda para Chuy, gasometria dói, caramba! Quando cai, acabou. Finitus est.

 

Calado,  ar circunspecto, em pé junto ao meu leito com esse velho chapéu de feltro entre as mãos você está muito sinistro. Parece um tatupoiú  conhece? O peba? papa-defunto, sô! É! Com esse terno escuro aí então... Sempre vi mamãe implicar muito com você e então desde pequeno eu achei que também podia. Hoje eu penso que nunca fui muito capaz de encarar o tremendo desafio e a extrema responsabilidade de ser primogênito, nos termos e condições envolvidas. Mas fui, muito a contragosto, até descobrir aquele irmão mais filho que eu, pois mais velho. Não chegou a termo, é verdade, mas durante um tempo ocupou corações & mentes dos velhos. Quando eu soube da existência desse evento, sabem o que  fiz? Transferi prazerosamente para ele o título e todas as prerrogativas do morgadio. Mas não dei publicidade a tal ato, talvez pela extrema racionalidade do mesmo.  Por isso menti antes, mas sou pai, sim. Neta com amante ainda não tive esse prazer, principalmente se ele fosse um cara assim que desse as cartas em alguma safadeza dessas bem lucrativas. Posso tirar as castanhas do fogo usando  a mão do gato e ainda taxá-lo de ladrão... a vampira do laboratório (feiosa ainda por cima)  mexe e remexe com a imensa agulha.

Dona Tina passou rapidamente por aqui, com seu cesto de embira trançada na cabeça. Dentro, como sempre, alface, couve, almeirão, repolho, beterraba, as cores me atraíam, acabei quase vegetariano, talvez isso de agora, esse sangue e essas dores, tudo tivesse sido evitado se eu levasse até o fim essa tendência infantil; no lugar, cachaça, muito fumo de todas as espécies e origens, andei cheirando um pouco também, fiz muita arte,  hélas!

Apesar disso conversamos bastante. Ela me contou que nas horas vagas, enquanto esperava crescerem as hortaliças e o marido voltar do armazém com a cachaça, lia. Lia desesperadamente. Soluçava e lia, procurava entender achava que devia ter algum sentido, uma lógica. Lembrei do cardume de um peixe chamado ubarana que um dia veio de encontro aos nossos anzóis. Era eu mais um tio que me ensinara a pescar, nada demais, ficávamos em cima de uma grande pedra no fim da praia: cocorocas, um que outro baiacu sem-vergonha que roubava iscas sem parar com aquela boquinha mole de lábios grossos e dentes serrilhados, às vezes cortava a linha, o danado.

Então, quase tão imponderável como sermos atingidos por um raio, vieram as ubaranas. Num assanho que precisava de ver. O mar fervia, e logo meu tio apanhou a primeira, e aí uma após outra fisgava o anzol, era só puxar. Cada um de nós pegou mais de uma dezena, de repente foram embora, voltamos para casa com aquela fieira de peixes, meu tio ria, mamãe nem acreditava. Mesmo assim fingiu zanga e lá fomos, eu e ele, para a beira do tanque, faca bem afiada, descamar e eviscerar os peixes. A lógica disso? Dona Tina lia e se desesperava, o marido bebia dormia e ela  e eu então, custei a aprender, sempre fui tapado, voltava feliz à pé para casa debaixo da via láctea, feliz ia dormir como um cãozinho sem memória.    

 


                                       AFTER HOURS

 

          Se Ivo viu alguma cousa eu não sei, mas o  vizinho de leito deixou de fazer sentido e minha neta e seu amante ministro imaginário pararam de fazer parte das minhas experanças e então nada mais  importava. Eu estava em um cubículo, miríades de fios, uns mais grossos outros nem tantos, cada um de uma cor, saíam do meu corpo em direção a  uma caixa onde se conectavam. Ela emitia um zumbido constante e muito satisfeita consigo mesma, parecia que através dos tubos e fios ela ia se alimentando do meu organismo. Era muito desagradável, não sei porque eu ficava imaginando um tigre sugando a presa.

          Além do zumbido do tigre havia um outro barulho, esse um constante ressoar de uma pancada surda, como um batimento cardíaco. Sessenta e tantos, setenta e alguma coisa, havia uma tela fosforecente na caixa. Um ícone pulsava no mesmo andamento, algo assim como um alegro maestoso. Era só eu me mexer e os números pulavam para oitenta e tantos ou mais. Tinha certeza, entretanto, que aquilo era só encenação. Havia morrido, caput. Alea jacta, Cloto, Láquesis e por fim Átropos

No entanto, dentro da modéstia que sempre norteou meus atos,  enquanto permanecia ainda ligado por tênues fios à minha existência terrena e não me desatava por completo do dito invólucro carnal, aguentei firme.  Ao contrário do que a maioria diz que faz, não permiti que minha alminha quase desencarnada  subisse  ao teto, mas sim que ficasse escondida e caladinha no chão, bem embaixo do leito hospitalar. Afinal nada mais kitsch que morrer e ficar por ali como um paspalho olhando a azáfama que lá embaixo ocorria. Teatro tartufo, arlequinada, aquele vaudeville todo.  Pior que isso só mesmo os programas domingueiros da TV, toda aquela estridência, pobreza de espírito e cafonice profunda e incurável, puro Mondo Cane.  Já a morte, a corriqueira morte, a cessação da existência, essa uma torna o biltre irremediável  num cadáver pomposo e digno de todas as homenagens. Assim falaria o velho Nélson, e ele tem razão.  Já houve época em que a pompa era maior ainda, lembro de féretros que paravam o trânsito da cidade, aquela lombriga enorme que nunca mais acabava de passar, a completa frota automobilística do município. Todo mundo tirava o chapéu e se punha em posição respeitosa, não importando o quão filho-da-puta tivesse sido o de cujus, cáspite! Falar latim e usar interjeições arcaicas é o cabível nessas horas,  Tia Mariana, tão bonitinha em seu caixão, coberta de margaridas amarelas, Tia Mariana lá se foi para a cova, ela com suas margaridinhas, tão contente que me deu um baita sorriso quando iam fechando o caixão, só faltou exclamar, rindo, “impagável!” Era o meu prêmio quando eu conseguia impressioná-la favoravelmente com meus escritos.

          Enquanto isso, vai ficando cada vez mais escuro. Perdi meus óculos e não vejo nada. Aproximam-se sombras e então  todos os meus mortos, inapeláveis defuntos, cada um mais feio e deteriorado que o outro. E que fedor terrível! Consigo ditingüir alguns, nessa penumbra atroz. Sei quem são e admiro-me de vê-los tão amigos uns dos outros. apesar de em vida não terem se conhecido, morei em tantos lugares! irmãos da minha mãe e do meu pai, vinte e dois espectros, haviam se agregado ao grupo. Era uma algaravia, entretanto pareciam compreenderem-se uns aos outros e estavam achando tudo muitíssimo agradável. Troço muito esquisito. Resolvi dar um mugido alto, quem sabe também uma forte mijada na areia segurando o pau e escrevendo meu nome completo. Cadê esse dito um, onde foi que se meteu, cutuco o pijama e pego um caninho cheio de vermelho amarelado ou pus avermelhado, o trem solta, e o cheiro é pior ainda, vem aquela disgramada me dá uma bronca, como é que vou revidar, todo ligado, penso em cuspir, sai uma baba boba, ela apesar da catadura limpa cuidadosamente. Afinal é uma boa moça, vai ver o cachaceiro em casa enche ela de porrada e os filhos, o maiorzinho disse que vai revidar ai meu Deus é cada dia mais problema e sofrimento, valei-me Pastor Zinho!

 


MIRABILE VISU!

 

Nada faz o menor sentido. O tempo. O tempo cessa, os minutos e as horas tombam inertes, completamente impotentes numa lassidão final. Os segundos deixam de correr e de serem contados um a um. O universo inteiro congela em um infinitamente pequeno e imperceptível ponto. Mas logo um pequenino feixe de luz escapa, expande-se pelo vazio e as engrenagens todas movem-se outra vez, da mesma maneira de sempre. Os mortos vão-se reintegrando lentamente à natureza, carnes, ossos, cabelos e dentes logo sais minerais e algum pouco metal, a compostagem processa-se, a memória esvai-se nos que ficaram, cada vez menos lembrado, se confundem as histórias, personagens se alteram e trocam de lugar uns com os outros e logo o sentido se perde.
 

 

 

                                               ENTROPIA


 As ubaranas saltaram rumo ao céu naquela faiscante tarde de verão e se imobilizaram no azul, formando ideogramas. Os pingos de água refletiram o sol e um arco da velha ao fundo completou o quadro. 
Brasília 2001-2013, julho,14.