domingo, 20 de janeiro de 2013

SAUDADES DO RIO



Ir para casa ao entardecer. A residência ficava na Rua das Belas Noites, uma quase imperceptível ladeira entre a rua dos Barbonos e o Passeio Público. Neste as árvores, já de bom porte, disfarçavam a lagoa aterrada dos tempos do Vice-Rei Luís de Vasconcelos, que para tal fim mandou arrasar o morro das Mangueiras. Que ficava bem ali, onde hoje é o Largo da Lapa. Foi também o Vice-Rei o responsável pela abertura da nossa rua, a qual o povo já está apelidando "das Marrecas", por causa do chafariz de Mestre Valentim, bem lá em cima, junto com os Barbonos.

Vizinha, a escola de música do Padre José Maurício, onde antigamente os jovens irmãos, o Príncipe e a Princesa tomavam aulas. Embora as infindáveis escalas praticadas no pianoforte ou no cravo amolassem um pouco pela repetição maçante, tínhamos paciência; a compensação vinha quando o próprio padre nos brindava com uma que outra de suas magníficas peças: Estudos, Oratórios Salve-Regina, Laudemus, etc. De onde igualmente fluía música, maravilhosa música, era de logo abaixo, na esquina da Rua do Passeio. Do Palácio do Conde da Barca (em cujo jardim existia um horto de essências indígenas e plantas curativas), dos estudos do maestro Neukomm, que coletava fascinado as modinhas de Joaquim Manoel da Câmara.

Após o jantar, se era dia propício e sobretudo fosse o mês de maio, as cadeiras eram postas na calçada e extasiados assistíamos o nascer da lua cheia, bem por cima da praça. Então compreendíamos o porquê de se chamar assim a nossa rua. Mesmo que seu nome virasse daí em diante um segredo somente partilhado pelos moradores, definia o privilégio que era morar ali. E aí conversávamos uns com os outros. Alguns vizinhos passavam, cumprimentavam e freqüentemente paravam para dois dedos de prosa amena. Oito, oito e meia da noite todos para cama que após esse horário só os desocupados, vadios e malandros circulavam. Com a polícia no encalço, que a cidade era tranqüila e assim a queriam seus moradores e governantes.

Amanhecia e íamos á procura do peixe, ali perto. Assistíamos entre preocupados e admirados (fazia mal, a água do mar!) alguns poucos banhistas que se aventuravam entre as cordiais ondinhas, na Praia das Areias de Espanha, logo depois do Boqueirão. Antes, é claro, já ouvíramos missa (ainda no escuro da antemanhã), ou na Lapa, ou mais longe um pouco, em Santa Luzia, bem na beira-mar. Para essa última era necessário caminhar, mas íamos distraídos com as ondas que morriam suaves nas areias da rua do Passeio, pois que era mesmo disso que se tratava: passear, gozar calmamente a vida nos ares da manhã mal rompida...



Brasília, maio de 2005.

Paulo da Mata-Machado Jr.







sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

SIC TRANSIT



Muito medo. Primeira vez cinco, seis anos. A prima da mãe. Cemitério enorme, cinza. Mausoléus revestidos de pó de pedra. Pequenos postigos de vidros empoeirados. Do lado de dentro, esgares. Cadáveres espiavam. Esperavam. Sol a pino, calor.

Noite. Para casa depois do trabalho. Olhava sem querer pela janela do ônibus. Muros altos, não o bastante para impedir a visão da arquitetura funerária. Sempre virava a cara, mas acabava olhando. Adulto, já, e ainda esse susto de cemitério.

Um dia o pai morreu e foram a enterrar-lhe o corpo. O primeiro de muitos velórios suportados. De lá para cá, de cá para lá. Cada vez o ambiente mais familiar; aquela árvore cresceu desde a última vez, está melhor, está  mais mal cuidado. Moscas aumentaram muito este ano. Chove. Lama nos sapatos. Com o Sol, poeira. Cada vez mais longe ficavam as covas, cada vez  mais. Cansaço. Raras vezes ia até o fim, agora. Compreendiam. Os cadáveres agora sorriam, afetivos.


Distraiu-se pensando na vida. Vieram e aferrolharam a tampa. Insólito. Sempre achou aquilo  incoerente: todos falando baixo e o som rascante da colher de pedreiro nos restos do cimento no fundo do carrinho de mão. Tinha uns que caprichavam, alisando cuidadosamente a massa até deixá-la por igual nas bordas das lajes. Outros, ébrios e relaxados: cimento atirado a esmo, emboço mal feito, todo irregular. Ficavam mal postas as tampas, entravam bichos, poeira, lixo. Mas agora era tudo muito escuro, apertado e desconfortável, pensou. Reclamar a quem?

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

A SELEÇÃO DA PARAÍBA







Existem pessoas das quais instintivamente gostamos. Elas emitem um não-sei-quê, irradiam uma “aura”, possuem uma simpatia natural que faz amigo devotado de cada um que delas se aproxima.

Francisco Arnaud Diniz, o “Chico Arnaud da Paraíba” certamente é uma dessas afortunadas pessoas. Era amigo dele antes mesmo de conhecê-lo pessoalmente, de tanto ouvir falar (bem e muito bem) a seu respeito, por um amigo comum, também paraibano. Valter era meu chefe no trabalho, quando morava ainda no Rio de Janeiro. Conservava fielmente as amizades da sua Paraíba natal, e nenhuma era mais frequentemente citada que o Chico Arnaud. Chico e seus casos, Chico e suas histórias próprias e dos outros.

Anos depois, chegando em Recife onde passaria a trabalhar transferido do Paraná, estava ansioso para encontrar o famoso personagem das histórias do Valter. E por coincidência ele era um dos chefes de divisão da minha Superintendência, ou seja, ia trabalhar comigo!

Entretanto houve um atraso nesse encontro, pois ele estava em licença para tratamento de saúde. Mas logo retornou ao trabalho e em poucos dias era como se fôssemos amigos de longa data. Tornou-se um hábito sairmos pelo menos uma vez por semana, junto com os demais funcionários da Superitendência, para uma conversa amena em torno de umas cervejas e tira-gostos. Chico sempre pontificava, com casos e mais casos do folclore político e outros, da sua querida Paraíba.

Uma das mais engraçadas era a história que segundo ele havia acontecido há muitos anos, com um personagem que ainda era, naquele final da década de setenta, uma espécie de lenda viva em João Pessoa. E que muitos anos antes havia protagonizado um episódio que ficara na memória do povo da valente e antiga Nossa Senhora das Neves: Venelipe, o nome do herói desse caso. Funcionário público estadual, começara servindo cafezinho e executando pequenas tarefas durante anos a fio, até se transformar em instituição popular.

Era a década de quarenta do último século. Pernambuco, o mais rico e maior estado da região, havia conseguido formar uma seleção de futebol praticamente imbatível. Basta dizer que jogavam no time nomes como Orlando e Ademir, ambos mais tarde do esquadrão vascaíno e da Seleção Brasileira de Futebol do ano de 1950.

Mas naqueles dias e ainda no âmbito estadual, o artilheiro do time era o Tará. Famoso a ponto de a torcida organizada ter conseguido e treinado um papagaio que era levado a campo, onde ficava berrando metalicamente, para deleite de uns e profundo desgosto de outros: “Gol de Tará! Gol de Tará! Gol de Tará!”

Já na Paraíba a coisa do futebol ainda não engrenara. Tinham alguns jogadores, times etc. mas nada que fizesse sombra ao poderoso vizinho. Eram mesmo um fracasso dentro das quatro linhas do gramado, como gostam de nomear os cronistas e locutores esportivos.

E não foi que um belo dia chegou em João Pessoa a notícia que Pernambuco mandara desafiar o time local para um afrontamento? Beirava o acinte tal desfrute, mas quem ia recusar? Afinal paraibano desprovido de coragem pessoal ainda está para nascer, desde que mundo é mundo e os fenícios foram postos para correr de lá pelas valorosas nações indígenas dos Tupis e Cariris e respectivas tribos dos Tabajaras (muito antes do maestro Severino Araújo “domesticá-los”), Potiguares (os primeiros a comer – pela via oral – um europeu, em 24 de agosto de 1501 – apud “Efemérides Brasileiras” do Barão do Rio Branco) e mais Sucurus, Icós, Pegas e Paiacus.















Mas como eu ia dizendo, os valorosos paraibanos, embora com vontade de fazer um churrasco de pernambucano nos escondidos da Mata do Amém ou do Buraquinho, toparam. Aceitaram o desafio, armaram o time e levaram uma goleada de 15 (QUINZE!) a 0 (ZERO!!). Com vários gols do Tará e seu papagaio infernal, ambos em dia de particular inspiração. O governo estadual até pensou em decretar luto oficial, mas espontaneamente um véu de silêncio, opróbrio e dor cobriu a Paraíba por inteiro, de João Pessoa à Cachoeira dos Índios.

O pior, porém, eu ainda não contei: é que o desafio pernambucano constava na verdade de dois jogos: o primeiro em João Pessoa e o segundo em Recife. E se o desastre tinha sido daquela monta no território natal, que dirá no estrangeiro? E agora? Quem vai? Quem irá cumprir o resto do calvário imposto pelo arrogante vizinho?

Os jogadores, com mais espírito esportivo, acabaram concordando com a excursão. Já a cartolagem, que era igualzinha a de hoje, mudou de assunto e foi cada um cuidar de sua vida. Fugiram todos. Não havia um só que pudesse ser indicado como chefe da delegação que iria a Pernambuco, perder sabe-se lá de quanto no covil dos lobos, na toca da onça, no arraial das cobras criadas. O placar ia ser, com certeza, de uns trinta a zero! “Quero lá saber disso! Filho de minha mãe é que não vai enfiar a mão nessa cumbuca!” “Estou pro sertão, e lá fico todo esse resto de mês e se calhar ainda o outro: não choveu no São José e a seca vem brava!”

Não mais que de repente, do fundo da sala uma voz pronunciou a salvadora palavra:

- Vô.

- Quê? Quem? Como? Quem falou? Foi você, Venelipe?

Era, com efeito, a voz do nosso herói, Venelipe, servente da Secretaria de Saúde do Estado, faz-tudo do Secretário, figura por demais conhecida de toda a Capital, torcedor doente do glorioso Botafogo da Paraíba quem havia falado. E entre o dizer e o fazer, pouco tempo permeou-se. Lá se foi Venelipe à frente da desacreditada Seleção de Futebol da Paraíba, pronto para a imolação definitiva. Todos cumprimentavam o herói, embora à socapa rirem-se do louco, ingênuo e temerário, simples Venelipe que simplesmente ia.

E alguns dias depois, Pernambuco e Paraíba se enfrentam em Recife: o papagaio ficou rouco, o Capibaribe encheu, a rua da Aurora transmudou-se em sombras, Tará ficou ao Deus dará? Não sei. Só se sabe que foi 31 para Pernambuco, mas jogo duríssimo, pau a pau, de se dizer, se fosse nos dias de hoje, que o “campeão moral” tinha sido a Paraíba. Esforço, denodo e galhardia compensaram a falta de preparo.

O delírio tomou conta das ruas de João Pessoa, tão logo chegou notícia do acontecido. O povo todo saiu às ruas cantando e folgando como se um carnaval antecipado estivesse acontecendo. Alegria! Alegria! Estavam salvas a pátria e a honra paraibana!

E todos se dirigiram para as portas da cidade, por onde ia chegar a delegação dos heróis. E lá uma comissão especialmente formada para o evento espera a Seleção tendo à frente o líder inconteste, Venelipe, o Magnânimo.

E quando chegam, no meio do delírio de foguetes, apitos, sinos, gritos, sirenes, etc. sobe ao palanque onde está a comissão Carlos Neves da Franca, Tabelião, orador de incontidos arroubos retóricos, figura famosíssima e querida de todos. Dirigindo-se a Venelipe, inchado de orgulho cívico e com a emoção a transbordar brada:

- VENELIPE! Três são os momentos que definiram o Brasil! Três são as palavras que se inscrevem com letras de ouro na historiografia da Pátria Brasileira e ficaram para sempre inscritas no coração e na memória do povo! O FICO! de Dom Pedro Primeiro, o NÉGO! de João Pessoa e o VÔ! de Venelipe!

O palanque quase vem abaixo com os aplausos.

Recife, 1979 – Brasília 2005

Paulo da Mata-Machado Jr.













terça-feira, 15 de janeiro de 2013

O AMERICANO QUE GOSTAVA DE PASSARINHO






Segundo conta meu primo Fernando da Matta Machado, tio João, seu pai, sempre que rememorava sua infância falava sobre “os terríveis moleques de Diamantina, verdadeiros traquinas”. Claro que ele e seu irmão mais próximo, Carlos eram da turma!

Naqueles tempos havia por lá um americano que resolvera vir fazer fortuna na América do Sul. Muito empreendedor, o ianque logo logo entrou em inúmeros negócios lucrativos: entre eles construiu a primeira estrada que ligava o velho Tejuco à antiga Curralinho, hoje a cidade de Corinto. Com isso ficou rico e pode comprar para si e sua família uma boa casa com enorme quintal.

Era um admirador da flora e da fauna e principalmente adorava os passarinhos do espinhaço mineiro. Para estes últimos, fez construir no terreno um imenso viveiro que acomodaria centenas de pássaros e logo comunicou à meninada que pagaria pelos que fossem apanhados pelos moleques.

Daí para a frente não falhava um dia sem que houvessem dois ou mais garotos em sua porta, cada com uma ave, as quais ele adquiria pagando bons tostões. Assim, em pouco tempo sua grande prisão estava superlotada!

E foi uma decepção geral quando ele comunicou o fato à garotada! Mas isso durou pouco tempo: um deles, mais esperto, levou um dia enorme ave para o “Seu Míler” e tantas fez, usando inventiva lábia, que acabou convencendo o americano a ficar com o animal, “presente dos garotos de Diamantina”.

E foi obra de instantes após o gavião (pois era um desses predadores!) ter sido colocado no viveiro para não restar um só passarinho vivo! O Muller ficou muito triste, mas como não era rancoroso e sem maldade, logo mandou soltar o gavião e voltou a comprar aves dos garotos, que assim conseguiram retornar ao lucrativo trafico...

Brasília, janeiro de 2013

sábado, 12 de janeiro de 2013

POESIA É MUITO CHATO MAS A GENTE PERSEVERA...

M E N I N O






Fugia de casa

subia no morro

sumia no mato

o Sol! O Sol!

Fazia uma pipa

na linha cerol

de cola e de vidro

moído no trilho

da linha do bonde.



Uma vez foi um deles

que quase virou

saindo dos trilhos

por causa do pó.

Meu pai riu tanto

quando escutou.

Mas é que foi Zico

amigo do peito

quem me contou.