quinta-feira, 27 de outubro de 2016

DANDO DE COMER AO MONSTRO

"NÃO fale em crise, trabalhe!"  Lembram desse lema? Pois eu lembro muito bem, assim como me recordo que sempre quando o lia, lembrava do supremo cinismo do dístico que encimava o portão do mais terrível campo de concentração nazista, o de Auschwitz, na Polônia, assim como em outros matadouros: "Arbeit macht Frei" ou "O Trabalho Liberta".
      Após o fim da guerra, com a libertação dos sobreviventes, o aprisionamento de muitos dos responsáveis pelos horrendos crimes do regime totalitário, os fascistas de todas as cores e latitudes mudaram o modo de agir: no lugar da velha e ignorante empáfia, da obtusa intolerância, começaram a usar meios muito mais discretos e melífluos para alcançarem seus sinistros objetivos. 
      À propaganda tosca e óbvia do incompetente Goebbels sobreveio a fase de ouro do "advertising marketing" e de sua Meca Mundial, A Madison Avenue em Manhattan, NYC - USA. E essa era a face exposta de um sistema eficientíssimo de doutrinação e influência, onde a Rand Corporation exercia conspícuamente seu papel de liderança na formação de corações&mentes.
      Apesar de as várias crises ocorridas dos anos sessenta do século passado até hoje terem servido para desmistificar concretamente essas práticas, desnudando-as ao grande público, alguns falsos dogmas formulados então ainda permanecem nos dias atuais, infelizmente intocados.
     O primeiro deles é sem dúvida o da doutrina "desenvolvimentista", ainda o principal artigo de fé de todos os sistemas econômicos e de governo, não importando a ideologia deles; o segundo - uma consequência do primeiro - é o que eu denomino de "a síndrome da cabeça de avestruz". A essa ave é atribuído, desde a antiga Roma, o costume de, quando ameaçado, esconder a cabeça na areia (o que certamente provocaria acerbos desmentidos, caso eles soubessem disso e pudessem se manifestar).
      Mas é (mais uma vez) o homem, esse estranho bicho que tem mania de atribuir a outros animais manias e práticas próprias da burrice inerente à especie. Assim, pedindo desculpas aos "Struthio Camelus" pela injusta comparação, digo que nós humanos, é que na realidade assim agimos. Preguiça, nossa principal "qualidade". Daí a grande maioria, quase totalidade aceitar como inelutável a crise em que mergulhamos  cada dia mais profundamente. 
      Todos reconhecemos, no fundo, que vivemos um período crucial para a sobrevivência da espécie, a cada dia mais evidente e fatal. E quase todos reconhecemos que "não há o que fazer". Mas acontece que há, sim: precisamos antes de mais nada reconhecer que o sistema capitalista tornou-se incontrolavelmente destrutivo. Não há como conciliá-lo à manutenção da vida humana no planeta. Esta exige conscientização, cooperação e coletivização. 
      Os meios de produção devem, sim, ser propriedade coletiva. A partir do mar, do ar, do solo e do subsolo, as riquezas primárias. os bens a serem produzidos devem ser utilitários, não objeto de consumo ostentatório. Todas as ações humanas devem se basear em cooperação entre os indivíduos e os povos, assim como o respeito e a preservação das diversas espécies animais, vegetais e minerais precisa imediatamente se transformar na lei maior do homem. 
      É a forma como vejo a nossa salvação: a única possibilidade. O desastre final não é hipótese futura, é o progressivo avanço caótico do presente.  

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